EU ACHO A LOUCURA UMA COISA NORMAL


Migrey

Ano novo, vida nova. O Obamis, pra gerar mais brasilidade neste quase extinto blog. O mundo em crise... Mas o brasileiro, este ser que vive em crise perene, tem um trunfo: ele nasceu na crise, por isso está habituado e nunca desiste.  E agora, depois do fim da horrenda novela A Favorita, inicia um novo ciclo de BBB, com suas estúpidas intrigas patrocinadas pelas empresas a perigo. Não direi que o governo atual é o melhor nem o pior. Tudo tem vantagens e desvantagens. E assim seguimos, apesar das turbulências, porque a vida é muito mais que essas picuinhas. Estou apenas divagando...

E vamos lá porque nada será como antes. Anuncio aqui que mudei de endereço bloguístico, e ainda tenho dúvidas sobre migração de textos. No momento não sei como fazer, nem se farei. Mas o futuro, proibido ou não, nos reserva surpresas inimagináveis e não pensarei nisso agora.

Eis o link do meu novo blog:

http://mzilda.wordpress.com/

Agora muito mais haver. Lá já tem um texto. Se eu fosse você leria. É um conto do livro Futuro Proibido (publiquei um outro alguns posts abaixo). Publico aqui uma prévia só para causar, regina.

 

Visite Port Watson

 

Geografia e Descrição Física

 

A ilha de Sonsorol, no Pacífico, um vulcão extinto cercado por recifes de coral, situa-se a 5 graus acima do Equador e a 132 graus de longitude, cerca de 650 km ao leste do extremo sudeste das Filipinas e 480 km ao norte do Estreito de Dampier, na Nova Guiné. Ela possui aproximadamente 16 km de diâmetro e uma área de cerca de 145 km².

O clima é típico da região: temperaturas balsâmicas e constantes (28° a 33° o ano todo), eventuais tufões violentos, monções de setembro a fevereiro, brisa do mar ao longo da costa, floresta tropical úmida e abafada nas encostas mais baixas do Monte sSonsorol (especialmente densa na parte norte da ilha, exposta aos ventos alísios). Próximo ao cume o tempo é quase permanentemente nublado, fresco e nebuloso, e a selva se estreita em um “floresta de nuvem” – musgos, pequenas árvores envoltas em musgos, hepáticas e orquídeas epífitas. Sonsorol possui água fresca em abundância, incluindo cachoeiras nos morros até o pequeno rio, Garuda.

 

Como Chegar Lá

 

Sonsorol continua sendo uma das ilhas mais inacessíveis em toda a área. Nenhuma linha aérea comercial pousa lá. Navios cargueiros levam carga para Sonsorol de Mindanao, Java, Taiwan, Hong Kong e outros portos.

Port Watson é hoje o único porto de entrada para Sonsorol, e não existe ali nenhuma Autoridade de Alfândega e Imigração. No entanto ninguém deve esperar passar despercebido em uma cidade tão pequena. Qualquer um que fique mais de um mês provavelmente será solicitado com educação a requerer residência ou então ir embora (ver Como se Tornar um Morador).

Nem Port Watson nem a republica possuem policia, portanto os moradores tendem a ficar atentos para problemas e se responsabilizam por solucioná-los. Visitantes hostis, insultuosos ou estrepitosos costumam apanhar de membros do comitê de vigilância ou da Milícia do Povo, e são banidos no próximo navio de partida...

 

Continua em novo endereço

 

 

 



Escrito por Maria Fernanda às 00h42
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Áugure – Tão Fácil te Querer

Outro dia fui até a casa de minha amiga Chris, para uma reunião de amigos. Chegando lá, quem abriu a porta foi o Joselito.

-Meeu, briguei com a Baby.

-O que aconteceu?

-As minas queriam que eu fosse comprar cerveja, mas me neguei porque não bebo cerveja, então foram todas ao supermercado. E outra: Eu quero ver minha novela, pô!- disse esta frase, a qual já escutei das bocas de minha mãe, tias e avó. E largou o corpinho no sofá.

Eis que a novela A Favorita começa, deixando Joselito em estado catatônico. Eu vira uns dois capítulos da tal novela, e portanto sei de tudo o que aconteceu e de tudo que acontecerá. É fácil, tudo é um presságio.

A maioria acha esta novela incredible, mas não sinto o mesmo. Além de ser uma trama repleta de intrigas internacionais fantásticas, o que mais me aborrece é a vilã, interpretada por Patrícia Pillar. A mulher tem uns ataques, dá umas gargalhadas maléficas e só falta esfregar uma mão na outra, à moda dos vilões caricatos dos desenhos animados. Hu Hu Huaahahahahahahaha! Mais ou menos assim.

Quando lembro de Vale Tudo, vejo que Odete Roitman é a vilã primordial e magnânima de todas as novelas do Brasil, quiçá do mundo. A mulher simplesmente exalava ódio e desprezo por tudo o que anda e rasteja sobre esta terra sem esboçar uma única gargalhada maléfica. Um show de interpretação. Saudade da Odete, ou até mesmo da Maria de Fátima, a filha ingrata de Regina Raquel Duarte, mulher e atriz compreensiva da televisão brasileira. Ela tem mesmo uma cara de mulher compreensiva, não sei explicar. Um beijo pra quem é travesti é a frase do novo emoticon de Regina Duarte no MSN.

Mas não era sobre isso que ia escrever. Eu queria falar sobre os augúrios. Tenho uma mania de coletar augúrios. Por exemplo, se eu vejo uma placa de carro enquanto penso em outra coisa, interpreto que a soma dos números é um presságio praquela outra coisa em que estava pensando enquanto avistei a placa. É uma numerologia intuitiva porém, eu não faço idéia do significado pitagórico dos números. Nos primórdios da humanidade, os áugures faziam seus vaticínios através da observação das vísceras de animais, por exemplo. Como sou vegetariana, acho desnecessário e prefiro me ater aos acontecimentos imediatos.

Faço isso com objetos, animais, árvores, pessoas, enfim, tudo o que anda e rasteja sobre a terra nos momentos do augúrio, e considero tanto o número final de dois dígitos como a soma. E tudo importa, da natureza à cor do objeto de análise. É como a interpretação de um sonho. Sei que é esquisito e tento me conter, mas é uma atividade inevitável. Tento inclusive esconder que faço isso, mas agora aqui estou, declarando aos quatro ventos.

E eis que na noite de ano novo, me liga Rods, meu grande amigo, já meio chapado das festas, para me transmitir alvíssaras do ano novo. Rods tem uma amiga numeróloga que o aconselha a usar frases específicas para cada ano, frases que atraem tudo de bom e afastam a zica.

-Maria, a frase chave para 2009 é TÃO FÁCIL TE QUERER. Quando tudo começar a ficar chato, você repete esta frase, assim como um mantra, em voz alta ou mentalmente, até que toda a chatice se vá.

Fácil te querer, ótima frase que me fez rir durante uns bons minutos, não sei se porque eu estava meio bêbada, ou porque bateu um flashback. Obviamente, deve ser porque é fácil querer rir disso.

Então, diante deste ano que se inicia, sem a necessidade de enumerar todos os aspectos, desejo Tudo Aquilo pra Todos Nós! Beijo pra quem é travesti, beijo pra quem não é.



Escrito por Maria Fernanda às 17h44
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Maslow, Sheldrake e a experiência de pico

Outro dia, no pub local, um estranho me perguntou quantos livros eu tinha escrito. Quando respondi 55, ele pareceu surpreso, e me perguntou se havia algum tema constante que aparecia em todos eles. Deitado de olhos abertos no meio da noite, eu decidi considerar aquilo como um desafio, e tentar resumir o tema básico de toda a minha obra. O resultado - a seguir - é o mais perto que eu consigo fazer em duas mil palavras.

Há cerca de 25 anos, recebi uma carta de um professor americano de psicologia chamado Abraham Maslow. O que ele tinha para dizer me surpreendeu com algo totalmente original. Maslow disse que, como psicólogo, ele estava cansado de estudar pessoas doentes, porque elas nunca falavam de outra coisa que não fosse sua doença. Então ele perguntou para os amigos: "Quem é a pessoa mais saudável que você conhece?" E reuniu essas pessoas saudáveis e começou a fazer perguntas. Ele descobriu imediatamente algo que ninguém tinha percebido antes: que essas pessoas extremamente saudáveis tinham, com frequência razoável, o que Maslow chamou de "experiência de pico", momentos de felicidade borbulhante e arrebatadora.
Um exemplo típico. Uma jovem mãe estava observando o marido e os filhos tomando o café da manhã. De repente, um raio de sol entrou pela janela. Ela pensou: "Meu Deus, eu tenho muita sorte!" - e entrou na experiência de pico.

Quando Maslow falou sobre as experiências de pico com seus alunos, ele fez outra descoberta importante. Eles começaram a se lembrar de suas próprias experiências de pico no passado, que já estavam quase esquecidas. Ele percebeu que esse era o problema: todos temos experiências de pico, mas nós as desconsideramos e logo as esquecemos. Mas, no momento em que seus alunos começaram a se lembrar das experiências de pico, eles começaram a ter novas experiências de pico.
Esse relato me entusiasmou muito. Porque era óbvio que, se a ciência conseguisse descobrir como induzir as experiências de pico, a maior parte dos nossos problemas sociais simplesmente desapareceria. Mesmo naquela época, no começo dos anos 1960, era óbvio que a maior parte de nossos problemas era causado pelo tédio e pela frustração, e que o alcoolismo, o abuso de drogas, a violência no futebol, o vandalismo e os crimes sexuais não passavam de uma busca desajeitada por essas experiências de pico. Se pudéssemos aprender o segredo da experiência de pico, estaríamos muito mais próximos da "Utopia moderna" de H.G. Wells.

Mas quando eu coloquei a questão para Maslow, sua resposta me desapontou. Ele disse que não achava possível ter experiências de pico "à vontade". Elas surgiam quando queriam,e não havia muito o que fazer a respeito. O comentário me pareceu oposto ao otimismo de suas idéias. Eu fiquei determinado a experimentar e tentar descobrir como induzir experiências de pico.
A primeira pista foi o fato de os alunos de Maslow vivenciarem mais experiências de pico logo que começaram a lembrar e falar sobre experiências passadas. O motivo era óbvio. Pensar e falar sobre a felicidade cria um estado de espírito otimista. Você tem a sensação de que o homem foi feito para ser feliz. O filósofo Epicteto fez uma observação interessante: "O homem não se preocupa tanto com os problemas reais quanto se preocupa com a ansiedade imaginária a respeito de problemas reais". Quer dizer, temos a tendência de encalhar em um estado mental negativo. É por isso que as pessoas felizes têm experiências de pico: elas não passam o tempo todo se preocupando com coisas que nunca vão acontecer.

Nos últimos 25 anos, eu aprendi muito sobre vários truques que podem ser usados para induzir a experiência de pico, e comprovei que, para minha grande satisfação, Maslow estava enganado. (Infelizmente, ele morreu antes que eu pudesse relatar isso a ele.) Existem várias técnicas mentais simples para induzir a experiência de pico, e o método básico é sempre o mesmo: deliberadamente criar um estado de "tensão interna", seguido imediatamente de um relaxamento. Graham Greene descobriu esse método básico quando era adolescente e resolveu jogar roleta russa com o revólver do irmão. Quando a agulha estalou em seco, ele sentiu uma sensação de prazer extraordinária. Esse método não é recomendável, mas qualquer um que pensar bem a respeito vai entender que a técnica contém todos os elementos fundamentais.

Algumas semanas atrás, eu passei quatro dias em Amsterdã tentando ensinar uma sala cheia de "estudantes maduros" a induzir experiências de pico. O experimento foi mais bem sucedido do que eu esperava. Nessa sessão final, dois estudantes acreditavam estar vendo uma luz dourada, e outra disse que se sentiu flutuar acima do chão.

Mas isso nos aproximaria de uma "Utopia moderna"? Há cinco anos, eu teria dito que não. Mas nesse meio tempo, houve um fascinate desdobramento.

Esse desenvolvimento se deve em boa parte a um único homem, o biólogo Rupert Sheldrake. Em um livro chamado A New Science of Life, Sheldrake apresentou uma teoria da evolução que chocou boa parte de seus colegas mais velhos. De acordo com a biologia moderna, a evolução se dá através de mudanças nos genes. Segundo Sheldrake, existe um método mais simples e mais rápido, que ele chama de " ressonância mórfica". A melhor maneira de explicar isso é citar a famosa história sobre os macacos da Ilha de Koshima, na costa do Japão. Os cientistas deram batatas-doces sujas para os macacos, e uma macaca extremamente esperta chamada Imo descobriu que, quando ela lavava as batatas na água do mar, o gosto ficava bem melhor. Rapidamente, todos os macacos aprenderam o truque. Mas outros macacos no Japão também aprenderam - macacos que não tiveram contato algum com aqueles em Koshima.

Seria algum tipo de telepatia? Aparentemente não, porque o fenômeno não ocorria apenas com animais, mas com cristais. Algumas substâncias são extremmente difíceis de se cristalizar em laboratório. Mas assim que um laboratório tem sucesso na cristalização, a substância passa a se cristalizar muito mais facilmente ao redor do mundo. Inicialmente, suspeitou-se que cientistas visitantes levavam pequenos fragmentos dos cristais em suas roupas e barbas. Mas essa possibilidade foi eliminada posteriormente. Aparentemente, os cristais estavam "aprendendo" uns com os outros, de algum modo... Sheldrake submeteu sua teoria a uma série de testes. Em um deles, ele enviou milhares de cartões com uma imagem-truque, em que uma face se esconde sob uma massa de linhas. Ele raciocinou que, no momento em que um certo número de pessoas aprendessem a "ver" o rosto oculto, um número cada vez maior passaria a ver a face imediatamente. E foi exatamente o que aconteceu.

Se Sheldrake estiver certo - e os biólogos estão brigando com ele a cada passo do caminho -, as consequências serão óbvias e extraordinárias. Inicialmente, teríamos que reconhecer que nossos escritores e artistas têm grande parte da culpa pelo estado caótico da sociedade. A maior característica de um vencedor do Prêmio Nobel parece ser acreditar que a vida é fútil e sem sentido, e dizer isso em livros e peças que terminam com a derrota do herói. Nós empurramos esse lixo para nossas crianças na escola e na universidade e acreditamos estar preparando-os para encarar a vida. Se exisitir mesmo uma verdade na teoria da ressonância mórfica, isso é o equivalente a despejar germes no reservatório de água da cidade.

Por outro lado, se um grupo suficientemente grande de seres humanos aprender a ter experiências de pico quando quiser - ou simplesmente aprender a se colocar em um estado de espírito favorável às experiências de pico -, então, de acordo com Sheldrake, o efeito continuará se espalhando naturalmente por um número cada vez maior de pessoas. E talvez um século depois - ou talvez bem menos - todos nasçam com a capacidade de induzir experiências de pico. E a face de nossa civilização mudaria completamente.

Collin Wilson
último conto do livro Futuro Proibido

Escrito por Maria Fernanda às 16h19
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Isso sim é voar parado

Tente não rir



Escrito por Maria Fernanda às 03h11
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Céu e Inferno - E=mc²

Já é a segunda vez que leio este livro. Primeiro porque sempre tive curiosidade quanto às alterações químicas que certas substâncias causam ao cérebro, segundo porque o autor é muito claro, racional e científico sem perder de vista o sentido espiritual que tais experiências podem proporcionar, terceiro porque eu não lembrava de tudo e quis recapitular. No meu caso, a procura por tais substâncias é muito mais xamânica e investigativa do que por mera busca de sensações corporais. Alguns tipos de droga, como a cocaína, jamais me seduziram. Quando tomo alguma coisa espero que uma porta na minha mente seja aberta, e através dela eu possa entrever algum aspecto inconsciente da minha mente, do meu espírito, que me acrescente em termos de conhecimento. Isto pode acontecer por meio de substâncias ou espontaneamente, de acordo com os equilíbrios químico e biológico do corpo. Huxley fala do cérebro como um órgão receptor, e não criador. Este órgão é uma válvula redutora da realidade, que tem o fim de priorizar os pensamentos e atos que digam respeito à sobrevivência material. Isso, vindo de um ser racional e científico como é o autor, abre a percepção e o entendimento quanto ao que é realmente o que chamamos de realidade.
Desde criança vi coisas que outros não viram, que não estavam fisicamente ali. Por isso deixo claro aqui que creio num mundo espiritual, que não está de modo algum separado da vida material. Isso se dá simplesmente devido à minha recusa em pensar que sou louca e devido à minha interpretação como observadora, aliada ao conhecimento científico. Afinal, de acordo com o nome deste blog, eu acho a loucura uma coisa normal, e como já postulou Einstein, energia é igual à matéria multiplicada pela aceleração da gravidade ao quadrado, outra prova de que a energia, ou espírito, existe independente da matéria, mas relaciona-se a esta de acordo com o campo de ação.
Quando experimentei ayahuasca, tive a nítida sensação de que sabia o que os outros estavam sentindo e até pensando. O mesmo com cogumelo. Depois, refletindo acerca disso, notei que em muitos casos isto havia se passado sem que me desse conta. São inúmeros exemplos: quando você se sente feliz ao redor de uma pessoa que está de bem com a vida, ou quando sente desconforto ao redor de alguém angustiado. De fato, na minha experiência com ayahuasca, quando pessoas falavam de fatos sofridos, muita gente saía para vomitar. Consegui me manter ali devido a pensamentos positivos que insisti em cultivar para aquelas pessoas, mas sentia um puxão no estômago da mesma forma. Ou seja, o corpo é esta materialização da energia submetido ao campo gravitacional da terra. Nada está separado e em todo o tempo isto é sentido; nós não estamos separados das outras pessoas e do resto do mundo.
A cultura ocidental e contemporânea separou o corpo do espírito, e a humanidade parece cada vez mais inconsciente a respeito deste fato. Uma vez um amigo me falou: Como alguém pode ser feliz neste mundo se há milhões de pessoas vivendo abaixo da linha de pobreza? Agora eu sei que ele tem razão. Mas não é só da pobreza material que falo, mas principalmente da pobreza do espírito, da separação das coisas e das pessoas, da inconsciência de que tudo se relaciona. Ainda acho que não sabemos pensar muito bem, não no sentido racional, mas na consciência de como tudo interage. É incrível como um mau pensamento é capaz de desencadear um série de acontecimentos desfavoráveis. O contrário se dá na emissão de um pensamento construtivo. Vendo isso, o pensamento é uma coisa, uma criação impalpável, mas não menos real.
Não é necessário, porém, o uso de drogas para se constatar este fato. Basta lembrar que as ondas de rádio estão aí, mas não podemos vê-las, ou então apreender um pensamento estranho na hora da vigília que de modo algum pertence à qualidade de pensamentos do momento. Eu, por exemplo, estou há um tempo sem fumar maconha e beber, coisas que para nossa sociedade são corriqueiras. Fiz isso para isolar interferências e identificar o que sou eu, o que é o outro e como nos relacionamos. Coisa nada fácil, já que isto ocorre o tempo todo, independente do estado químico e biológico do corpo, e o eu e o outro somos uma coisa só, vistos do espaço. E mesmo sendo eu o meu eu, não estou isenta de ser o outro.
Entendeu, regina?? Eu, quase, mas falta muito para praticar.

Escrito por Maria Fernanda às 00h40
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Sobre todas as coisas


Trazer à realidade comum o que pertence à sua imaginação é a arte do contemplador. O que existe em seu mundo ele faz existir também na realidade comum. A coisa imaginária sofre mutações de acordo com as infinitas realidades até se transformar na coisa palpável.
Eis o eles disseram sobre isso:


Por sua própria natureza, cada espírito, em sua prisão corpórea, está condenado a sofrer e gozar em solidão. Sensações, sentimentos, insights, fantasias – tudo isso são coisas privadas e, a não ser através de símbolos, e indiretamente, não podem ser transmitidas. Podemos acumular informações sobre experiências, mas nunca as próprias experiências. Da família à nação, cada grupo humano é uma sociedade de universos insulares.
Aldous Huxley


As teorias científicas não são o reflexo do real, mas as projeções do homem sobre esse real. O nosso mundo faz parte de nossa visão de mundo, a qual faz parte do nosso mundo. Somente aí o nosso “olhar sobre o olhar que olha poderá captar a realidade viva sem mutilá-la demais.
Edgar Morin


Valores foi somente o homem que pôs nas coisas, para se conservar – foi ele somente que criou sentido para as coisas, um sentido de homem! Por isso ele se chama de “homem”, isto é: o estimador.
Estimar é criar! O próprio estimar é, para todas as coisas estimadas, tesouro e jóia. Somente pelo estimar há valor: e sem o estimar a noz da existência seria oca.
Mutação dos valores – essa é a mutação daqueles que criam. Sempre aniquila quem quer ser um criador.
Criadores foram primeiro os povos, e só mais tarde os indivíduos; em verdade o próprio indivíduo é ainda a mais jovem das criações.
Os que amam foram sempre, e os que criam, os que criaram Bem e Mal. Fogo do amor arde nos nomes de todas as virtudes, e fogo da ira.
Muitas terras viu Zaratustra, e muitos povos: nenhuma potência maior encontrou Zaratustra sobre a terra, do que as obras dos que amam: “Bom” e “Mau” é seu nome.
...
Vontade de verdade é como se chama para vós o que vos impele e vos torna fervorosos?
Vontade de que seja pensável tudo o que é: assim chamo eu vossa vontade!
Quereis antes tornar pensável tudo o que é: pois duvidais, com justa desconfiança, de que seja pensável.
Quereis criar ainda um mundo diante do qual poderei ajoelhar-vos: assim é vossa última esperança e embriaguez.
E este segredo a própria vida me contou:
Não atingiu a verdade, por certo, quem atirou em sua direção a palavra da vontade de existência: essa vontade – não há!
Pois o que é, não pode querer; mas o que está na existência, como poderia ainda querer vir à existência?
Somente onde há vida, há também vontade: mas não vontade de vida, e sim – assim vos ensino – vontade de potência!
Bem e Mal que seja imperecível – não há! Por si mesmo ele tem sempre de se superar de novo.
Com vossos valores e palavras de Bem e Mal exerceis poder, estimadores de valores; e esse é o vosso amor escondido e o esplendor, estremecimento e transbordamento de vossas almas.
Friedrich Nietzsche


Escrito por Maria Fernanda às 00h43
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Houston, we have a problem



Escrito por Maria Fernanda às 17h38
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Sonhava com Nildo Ourix ... mas chamava o marido de Zé


Um trânsito da peste, e Armando liga o rádio para saber das últimas notícias. Quer saber se tem algum acidente, alguma passeata, greve, enfim, algo que explique o porquê do transito infernal.
O locutor começa a desfiar um rosário de notícias de cunho surrealista.
-Confronto entre polícias civil e militar, no palácio dos Bandeirantes. Até o momento 12 pessoas feridas.
Julgou ter ouvido besteira. Mas o locutor prosseguiu:
Agora, vamos ao nosso repórter especial Julio Madureira, direto do local.
-Estamos aqui, direto do palácio dos Bandeirantes, onde a polícia militar armou uma série de barricadas para impedir a entrada de policiais civis. O clima no local é de confronto, com troca de tiros e bombas de gás. É com você, Valdo.
Ouviu aquela coisa toda, aquele surrealismo, que cheirava a politicagem e pensou: Onde vamos parar?
-Agora vamos ao seqüestro da garota de 15 anos, que completa hoje três dias. Temos informações aqui que a refém, anteriormente liberada, acaba de voltar ao cativeiro, por exigência do seqüestrador.
Sim. Ouviu aquilo com seus ouvidos que a terra há de comer. Como um negociador deixa uma refém retornar ao cativeiro? Quem seria esta múmia, este laurso? É muita desilusão. Onde esse país vai parar?
Lembrou que teria de votar no próximo domingo, e aquilo o aborreceu profundamente.
Armando acredita cada vez mais que o voto nulo é a solução dos seus problemas. Se não soluciona os financeiros, pelo menos soluciona os morais. Jurou que não votaria em mais ninguém, até o fim da vida. Não daria seu precioso voto a nenhum filho da puta. Confiava em si, nas pessoas que amava e mais ninguém.
-E agora mais um su – su – su – sucesso... – e começou a tocar o funk da periguete.
Desligou o rádio. Balançou a cabeça em sinal de desaprovação e enfrentou mais 1 hora e meia de trânsito.
Quando chegou em casa encontrou a esposa já adormecida. Deitou logo, extenuado por um dia de trabalho e trânsito malditos. Tentou dormir, mas fazia um calor sertanejo. Armando sentia-se numa sauna em Bangu, num incêndio em Madagascar. O calor era tão intenso que ele pularia de barriga no piscinão de Ramos. Rolou de um lado pro outro da cama, expulsou os edredons. Clotilde, a esposa, dormia inquieta. Ela andava estranha nos últimos dias, mal falava com ele. Armando suspeitou que ela estava tendo um caso. Ela o chamara de Zé quase todas as noites anteriores, em sonhos.
E então que ele ouviu:
-Zé... Zéhh...
Seu sentimento de que estava sendo traído aumentou. Ficou perplexo, no escuro, aguardando as falas da esposa. Esperava que ela confessasse ali mesmo, em sonhos, o que andava fazendo.
Depois desse dia infernal, ainda essa!! Perguntou:
-Quem é Zé?
Clotilde apenas sorriu em seu sono.
Assim já é demais, pensou. A idéia de ser corno manso o afligia. Ele tinha de tomar uma atitude.
-Zé...
-Quem é Zé?
-Zé, eu preciso do Nildo.
-Quem é Nildo?
-Nildo Ourix...
Virou e continuou a sonhar.
Dois? Zé e Nildo? Não é possível. Eu não sou um Zé qualquer, e quem é Nildo?? Nildo Ourix? Que nome é esse?
Será que sua esposa estava tendo um caso com Nildo Ourix? A frase “Eu preciso do Nildo” ecoava em sua cabeça. Quem diabos era Nildo? Deu uma dormida, mas acordou suado, de um pesadelo horrível. Em seu sonho, Nildo Ourix era um velho gangsta, de terno branco e cabelos brancos presos num rabo de cavalo. Aquilo o enojava.
Um medo irracional tomou conta de sua mente. A possível cornitude o revoltava, o amedrontava. Possível não. Há esta altura ele estava certo de que era um corno. Pronto, já não confiava em mais ninguém. Como ela pode fazer isso comigo? Pensou em acordá-la, brigar com ela, questionar tudo, discutir a relação, mas desistiu. Não queria mais saber. Levantou-se, e paranóico, foi ao computador. Acessou a página do Google e teclou as seguintes palavras chave: COMO DESTRUIR O SISTEMA
Logo pela manhã, Clotilde acordou, esbaforida e atrasada. Arrumou-se rapidamente para chegar ao simpósio de economia que organizara durante a semana, sobre a queda da bolsa de valores. Preocupava-se deveras porque a única coisa que faltava era a presença de Nildo Ourix, professor de economia, o qual Zé, seu colega de trabalho, teria de buscar no aeroporto. Ela conhecia Zé, e sabia que ele poderia esquecer da tarefa.
Não encontrou o marido e estranhou. Achou apenas um bilhete, em letras maiúsculas e agressivas: FUI COMPRAR CIGARRO. Leu e ficou perplexa, afinal Armando não fumava. Mas não tinha tempo pra isso. O Nildo Ourix... e correu.

Armando ... Foi comprar cigarro e nunca mais voltou.


Escrito por Maria Fernanda às 06h17
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Escrito por Maria Fernanda às 13h38
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Eleição, nosso show de intervalo entre governos



Escrito por Maria Fernanda às 23h25
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Músicas de Amor - Uma história de alegria insuportável com uma pitada de vergonha própria


Segundo Kleiderman, eu literalmente entrego as peripécias dos amigos neste blog, mesmo dando a eles nomes fictícios. Kleiderman inventou para si mesmo este incrível pseudônimo, que aqui reaproveito. Ele escreve num blog junto com o Eymael, um blog sensacional do qual sempre falo aqui. Sinto uma certa vergonha ao saber que alguns amigos passam pra ler, principalmente o Kleiderman e o Eymael, que têm um blog tão bom. Aliás o pseudônimo Kleiderman é demais! Lembra o Richard Claydeman.
E outro dia a Teresa me falou: Minha mãe tem lido o seu blog!
Foi um choque. Meu Deus, que vergonha! A mãe da Teresa lendo isso.
Daí penso: Por que escrevo se depois leio e acho extremamente uó? E ainda assim, deixo ali, ao dispor do olhar alheio? A única coisa que concluo é que isso se trata de um pequeno exorcismo, a fim de expulsar o demo deste corpinho que não lhe pertence.
Mas não penso em queimar o filme dos amigos. O que acontece é que são importantíssimos na minha vida: me fazem viver momentos de felicidade inenarráveis.
Outro dia, depois de ouvir o Eymael tocar no Berlim, fomos embora, eu, Antônia e Teresa. Eu, como personal driver, apenas dei a partida, liguei o som, suspirei e segui, perdida na avenida, na própria cidade natal. Acontece que o shuffle do som estava inspirado aquele dia e tocou uma seqüência de músicas linda. Todas músicas de amor, com o Curtis Mayfield, o Jorge Ben, o Otis Redding, o Al Green, o Michael...
Música só é música se for de amor. Cada uma das reginas pensava em suas questões do coração, queriam se entender. Eu pensava nos últimos casinhos que deram em nada, mas pensava principalmente no amigo do amigo. Marquei um encontro com o amigo há um tempo. Ao encontrar a criatura tomei um golpe. Fiquei chocada com o amigo dele. Olhava pro amigo do amigo e só pensava: O que é isso?, incrédula. Fiquei tão atrapalhada que senti vergonha alheia de mim mesma. E o pior: não consegui trocar uma palavra significativa com ele.
Às vezes o vejo. Ou então em vários carros, a pé na rua, na cara de todo cara que passa na minha frente; fatos que constituem um caso grave, gravíssimo, de ilusão idiótica. O que me encantou foi o olhar do cara, o sorriso... nada demais, eu nem o conheço. Por que fico atrapalhada então, sem saber o que dizer? Eu queria me entender!
- Billi, nem sempre a gente se entende, mas não tem problema. As pessoas sonhadoras como nós têm dessas coisas. – falou a Antônia em solidariedade. Solidariedade que foi fundamental para amainar o meu sentimento de inadequação.
Lembro de quando resolvi cursar artes, e ouvi uma enxurrada de poréns. É difícil, é impossível trabalhar com arte, talvez você não consiga - isto é o que ouvi. Sem querer acreditei e desisti, e fiquei extremamente infeliz profissionalmente. Depois chutei o balde e o trabalho que me sufocava o espírito e larguei tudo, para tentar fazer o que estou a fim. Mesmo assim ainda me sinto inadequada, ainda não passou. Às vezes eu não me entendo.
Tocava You are the sunshine of my life, do Stevie. Quando vimos, estávamos quase na Vila Maria, nada haver com nosso destino. Esquecemos de tudo para ouvir as músicas de amor, numa alegria insuportável. Sem querer entender mais nada.
Agora chega a parte do texto em que releio algumas outras partes e penso: Por que eu faço isso se vou achar uó depois? E que vergonha da mãe da Teresa. E do Kleiderman.


Escrito por Maria Fernanda às 21h20
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A magnitude é plena


Outro dia falei que não há nada pior que o nada. Retiro o que disse. Há sim coisas muito piores que o nada. Se dentro do tudo há coisas desagradabilíssimas, e o nada é simplesmente a ausência, certas coisas bem que poderiam passar a fazer parte de nada.
Esta semana provou ser a semana mais esdrúxula da minha vida. O naipe dos acontecimentos é justamente do tipo que eu gostaria que fizesse parte desta coisa imensurável, inominável que denominam Nada. Não vou nem comentar, mas sei de uma coisa: é o auge do retorno de Saturno. Imaginem que descobri recentemente que os desdobramentos deste evento astrológico se prolongam pelo período de anos. No momento em que eu já não agüentava mais, as coisas ficaram assustadoramente periclitantes e agressivas, zoando múltiplos aspectos do meu viver. Pelo que entendo isso faz parte do teste. Então vamos lá.
Nem tudo é lama porém, e do caos e da lama surgem pessoas, coisas e lembranças inesperadas, porém vitais no processo saturnino.
Tudo começou com um programa do Discovery, ontem, em que um desses “tarados da natureza” resolve conviver com uma alcatéia. Os “tarados da natureza” são esses caras que perdem a noção em ambiente bucólico. Temos o caçador de crocodilos e o homem-urso como exemplos. Tudo fica mais bizarro quando a criatura, o “tarado”, começa a conviver com os lobos como se fosse um deles: comendo carne crua, de quatro, barriga pra cima mostrando submissão, etc. Deu uma certa vergonha alheia, um constrangimento, que foi logo substituído por outra lembrança, importantíssima.
Lembrei do Waldick Soriano, que morreu ontem, e da música “Eu não sou cachorro não”. Uma pena o Waldick ter morrido para que eu lembrasse dessa canção que eu tanto precisava ouvir. Se nem um cão poderia ser “maltratado assim”, quanto menos os humanos. E eu gosto de cães, e muito mais de humanos.
E isso me fez lembrar de Waldick, um amigo que não mora mais em São Paulo, cujo apelido é Travesti de Interlagos.
Por sua vez, este apelido me lembrou do incrível filme que assisti no fim da semana passada. Vertigo, traduzido como Um corpo que cai, de Hitchcock. Ainda tive a oportunidade de assisti-lo projetado no estúdio de uns amigos, como um cinema, só que com a possibilidade de fumar um, o que salientou as qualidades psicodélicas do filme. Foi incrível: paisagens lindas, fotografia maravilhosa, a trilha arrepiante, os efeitos psicodélicos, a atriz, Kim Novak, uma loira platinada e magnânima. Quem não chapou assistia com atenção total. Alguém falou:
-Ela tem sua magnitude, mas parece um travesti!
De fato, as sobrancelhas pintadas de marrom e a voz nasal e grave de Kim causavam este efeito.
-Um travesti de coque. – completei
Um travesti de coque é um ser vago, espectral, nunca dantes visto, talvez inexistente. Isso ficou na minha cabeça, como uma obsessão. Tudo no filme era sincronicidade, assim como na vida. Imaginem que no auge da película, uma cena de amor e traição, um mega blaster pedaço de mármore cai com estrondo e desconecta o fio do projetor. Mais um corpo que cai.
A magnitude do travesti de coque, por sua vez, me lembrou de uma viagem. Estávamos eu e vários amigos em Caraíva, numa época em que ninguém ia pra lá. Era lua nova e o céu tinha todas as estrelas e mais algumas. Chovia estrela cadente. E cada vez que caía uma, de um e um minuto aproximadamente, um dos amigos soltava a frase: A magnitude é plena! E depois de uns 10 segundos acrescentava: Soberana!
Seu apelido é, até hoje, Magnitude.
Mas ele tinha razão. Nada importa mais do que a magnitude plena e soberana.
E lá, na magnitude celestial estava Saturno em sua plenitude, talvez arquitetando seus planos para mim.
Lembro-me da primeira vez que comi cogumelo. Comi dois: lindos, brancos, de cor amarela brilhante em cima. No princípio, me isolei. Fiquei aturdida porque enquanto via as imediações, o local onde eu estava, via simultaneamente um corredor com várias portas. Eu tinha de escolher uma delas, e me senti terrivelmente sozinha naquela situação, tanto quanto agora. Como não creio em alucinação, mas em percepção, sabia que tudo era real, que a verdade estava naquelas simbologias. Pensei em ir embora, me senti terrivelmente mal. Depois resolvi rezar,pedindo aos seres espirituais para que me orientassem. E então venci minha resistência a pedir socorro. Pedi um suco a um dos amigos que estava perto. Era meu jeito de pedir ajuda sem parecer muito que estava pedindo. Ele foi maravilhoso naquele momento e reconheci toda a sua boa vontade. Um simples suco, ou melhor, uma intervenção aparentemente insignificante de um amigo foi o ato mais singelo e necessário para aquele momento. Depois disso, saí lá fora, sentindo-me outra, uma eu muito melhor. O dia estava nublado, meio tristonho. Choveu torrencialmente durante os cinco dias anteriores, e ninguém agüentava mais.
E então, do nada, veio o Sol. Era como se Deus tivesse aberto uma nuvem com as mãos, deixando passar o raio. Eu podia até ouvir os acordes espectrais. Foi lindo. E é isso o que quero e espero que aconteça agora, deveras!!!
Isso me faz pensar que vou passar no teste, que estou quase lá...


Escrito por Maria Fernanda às 23h35
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Pesquisa Antropológica – Com quem você rolaria na grama apesar de?



Segundo meu amigo Eymael, a vida em sociedade é um fingimento descarado 90% do tempo. Pessoas fingem que são uma coisa quando são outra, fingem que não querem...
Isso vale para muita coisa, mas focalizemos na problemática das atrações. A maioria quer fornicar, mas finge que não, faz olhares blasé, um jeito cool, há o medo da rejeição, da não correspondência de afetos... Enfim, nem sempre as pessoas bancam a própria vontade.
Por isso vence aquele que ousa.

Conheço casos de pessoas que se olham durante uma eternidade e nunca acontece nada porque ficam intimidadas diante da auto-exposição. Convenhamos que isto é enfadonho. Sem falar na falta de criatividade, outra coisa que afeta a sociedade em toda a sua magnitude. Esta coisa do “Vem sempre aqui?” simplesmente não orna, nunca ornou. Por isso, aquele que tem criatividade vence, e aquele que ousa rola na grama. Escrevo isso porque tenho vivido e testemunhado, com esses olhos que a terra há de comer, um incrível e crescente número de xavecos mais esquisitos do mundo. E a maioria deles é bem-sucedida.

Num dos posts abaixo contei como um amigo, Bob, fez o anti-xaveco. Foi atacado por uma anti-musa, e fez que não ia. A garota não desistiu, o que acho admirável. Pelo menos ela estava sendo descarada em prol de si mesma. Até agarrou a perna de Bob. Este inventou um canal solto na boca, para despistá-la. Ora, mais tarde fiquei sabendo que nosso Bob Dylan brasileiro sucumbiu, apesar da aparente resistência. Estaria Bob constrangido pelo descaramento feminino?

O Flavinho, por exemplo, é um amigo especializado em xavecos chulos. Não vou descrever aqui toda a atitude do rapaz. Ele estava afim de Tereza, e agiu como age sempre: indiscretamente. Ela não deu confiança. Flavinho, no momento mais suave de sua atuação encostava-se na blusa de veludo de Tereza e perguntava, como um Herchkovitch: “Mas que tecido é esse? Esta BLUSA é tão... gostosa!!!” , rindo.
Sei... a blusa. Apesar da aparente repulsa de Tereza, minha intuição dizia: Não sei porque, mas acho que ele vai vencer. E para reiterar a eficácia de minhas faculdades intuitivas, logo depois soube que ele venceu.
E fica a pergunta: Por que?

Só pode ser porque diante do nada ele foi destemido, mesmo agindo conforme seu jeito chulo de ser. E não há nada pior que o nada. Há quem ache que as mulheres, em especial, gostam de ouvir besteiras. Talvez algumas gostem. Não sei. Posso apenas falar por mim, e não gosto. Mas e se a criatura que fala a maior besteira do mundo no momento delicado da conquista for interessante? Como nossa existência ocorre numa época de pseudo-liberação afetiva e sexual, noto que as pessoas ficam confusas diante de um curso de ação que seja ao mesmo tempo apropriado e impressionante.

Um conhecido me contou a respeito de uma aproximação estranha com 100% de aproveitamento. Aprendeu com um velho, que vira certa vez num bar. O velho olhava fixamente para uma mulher, e depois de muito olhar, aproximou-se, pôs uma das mãos na parede (veja que há toda uma coreografia, uma parede, um jogo de olhares), olhou bem pra ela e disse a primeira e bombástica frase: Te quero nua. Uma única e primeira frase... com a qual venceu. Para a total surpresa do observador, que em ocasiões posteriores, sem saber como e o que dizer, resolveu recorrer a esta tática periculosa. Segundo ele, as duas vezes em que a tentou, venceu, e só não tentará de novo para conservar o mito do xaveco 100% aproveitamento. E a frase tem que ser a primeira dirigida à mulher em questão, caso contrário não vale. O processo é artístico, quase marcial, e com regras rígidas. Creio eu que a eficácia desta abordagem é inversamente proporcional ao grau de politicamente correto. Não sei se um dia alguma mulher usou a frase Te quero nu. Mas já presenciei uma amiga propondo a um rapaz: Hey, você quer fornicar comigo? e foi prontamente atendida. Registro aqui minha curiosidade: Como a população masculina reagiria diante da aplicação desta tática? Apenas um interesse antropológico de minha parte.

Já vivi xavecos como: “E aí? O que você quer fazer? Podemos ir a um bar... Podemos fornicar...” Outra vez este verbo. Lembro de ter respondido com um Ok, afinal o rapaz em questão muito me interessava. Não achei ruim. Pelo contrário, o comportamento direto resolve muitas pendências e é absolutamente espontâneo, num tipo de situação em que a espontaneidade geralmente inexiste.
Muitos ficam horrorizados com isso, mas diante do nada, já é muito. E não há nada pior que o nada. Para mim, não há proposta mais indecente que um pedido para participar de uma campanha política. Mesmo assim, existem os xavecos constrangedores. Conheço pessoas, principalmente mulheres, que rejeitariam por completo este tipo de aproximação, apenas por causa do conteúdo verbal. Porém, regina, e se a tentativa viesse justamente de uma pessoa que interessa? Quem negará suas vontades?

A resposta para este dilema jaz na resposta da seguinte pergunta: Você rolaria na grama com esta pessoa? Apesar do conteúdo verbal explícito ou até mesmo chulo?
Sim. O ato de rolar na grama sugere uma imagem passional em uma cena bucólica, o cabelo na cara, pessoas rolando na grama...
Rolaria?

Escrito por Maria Fernanda às 17h11
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Idiotas da Objetividade


Existe algo mais inútil que arte? Existem os AB shaper, os adipômetros, os cortadores instantâneos de vegetais, toda uma gama de produtos de utilidade discutível. Mas diante da arte, estes são aparelhos utilíssimos, indispensáveis. Por que há tanto preconceito com a inutilidade então? Por que tudo tem que ser útil e fazer alguma coisa? Deve ser porque o inútil nos faz pensar...

Outro dia vi o filme “Eu, você, todos nós”, que mostra, além de outras coisas, como funciona o mercado de arte. Ou seja, assim como a Revista Caras. Veja este filme.

De fato, vivemos em sistemas que se preocupam sobretudo com a contenção das formas de arte.

Ora, o primeiro artista era aquele nego que pixava as cavernas seja lá por qual motivação. Se foi um rito de atração da caça ou um registro dos acontecimentos, não sabemos ao certo. Todo agrupamento humano tinha entre os seus um artista, um curandeiro, um ser com métodos não ortodoxos diante da vida. Hoje, o artista tem que conceituar, explicar-se deveras antes de finalizar seu produto artístico. O próprio olhar sobre a arte é caracterizado por fazer dela um produto, e não um elemento transformador. Pixar ou desenhar na rua o que se pensa é algo inadmissível para a manada de seres inexpressivos que formam a sociedade, porque é uma manifestação que não constitui um conceito e muito menos um produto. A idéia simplesmente está lá, para quem quiser pensar sobre ela. É grátis, e não ocupa espaço.

Antes mesmo de se expressar, o artista de hoje tem que elaborar um conceito que explique, assim como um texto ou folheto descritivo, sua atividade, porque de outra forma ninguém vai entender. Mas quem disse que alguém tem que entender? Lembro-me das aulas de arte e do papo do conceito. Um papo chato, limitador de qualquer ato criativo e não convencional. Eu não quero entender o que pensou o Malevich, quero simplesmente olhar e pensar outra coisa. Talvez ele me faça pensar em algo que ele jamais pensou...

Na verdade, o que se espera do ser humano é que este seja previsível. Por isso a limitação e o não incentivo à arte, seja ela de qualquer natureza. E assim foi criada uma geração conceitual de pseudo-artistas, de picaretas insensíveis, pessoas incapazes de causar emoção. Por exemplo, o Nuno Ramos, um cara que instala dois burros dentro do espaço de exposição, no qual uma locução irritante se repete por horas a fio. Ele é quem deveria ter se confinado no espaço, com fones de ouvido para se ouvir a si mesmo consigo próprio, ad eternum. Ou o cara que amarrou um cachorro até que este morresse de fome na galeria. Cruel e arbitrário, como qualquer outra atividade em que se usa um ser vivo para justificar o horror contemporâneo. Isto não é arte, é crueldade conceitual justificada. A pixação me emociona muito mais, como um renascimento das simbologias das cavernas, ou a Internet, como espaço virtual em que escritores e artistas divulgam seus trabalhos e idéias.

O pó de Van Gogh se revira na tumba, toda vez que alguém quer saber do conceito. O pó dos renascentistas se revira, de Miró, de Klimt, de Kafka, de Jimmy Hendrix e Beethoven. Até a arte culinária está impregnada pela praga conceitual. O Nelson, cujo pó também deve se agitar no sarcófago diante do conceito, criou uma expressão que ilustra este comportamento que tudo quer explicar e justificar: O idiota da objetividade. Este ser, que grassa por aí, não admira as belezas da invenção, do acaso, das infinitas possibilidades. Para ele, tudo tem de vir com uma brochura que explique como funciona, para que serve, numa espécie de manual de instruções. O artista não é um George Foreman grill. Ninguém é. Aliás artista é uma palavra corrompida. Chamam de artista o fulano que participou do BBB, as celebridades de Quem, que nunca emocionaram ninguém, a modelo e atriz, este ser que brota do asfalto. Dê uma googlada com a palavra artista e veja por si mesmo.

Arte, porém, é tudo aquilo que materializa o transcendente, que faz com que o ser humano olhe sua medíocre vidinha social e política por outra perspectiva, e assim vislumbre o Universo com um pouco mais de verdade. O sujeito que gosta de fazer ou apreciar arte, no fundo, é alguém que quer pensar além do que é permitido. Porque temos um limite pra pensar. Na verdade, temos todos que pensar igual, segundo o estado e o poder. Todos temos que gostar do conceito do Créu, da Ivete Sangalo e do Dado Dolabela. E todos temos que votar em idiotas da objetividade, porque o não votar é tido como um quase crime, uma inconseqüência. Ora, muito mais inconseqüente é votar em alguém em quem não se confia, só por votar. E aí a criatura eleita chega lá e nada faz, por vontade de nada fazer ou por impossibilidade diante de um sistema arquitetado para favorecer a poucos, muito poucos. Não vote mais, regina! Nunca mais!

Talvez, a coisa mais absurda e incongruente na contenção da manifestação artística é a limitação mercadológica da música, a forma de expressão que talvez seja a mais transcendental e imaterial de todas. Como um sujeito pode impedir a vibração e propagação das notas musicais? Estou certa de que o músico quer mais é que seu trabalho seja conhecido. O artista, quando cerceado, entra em profunda amargura. O Van Gogh, por exemplo, se matou. Ele não tinha nenhuma possibilidade de ser quem era, na época em que foi. Mas foi incrível, e até hoje permanece um ser único neste mundo formado por gado.

O artista verídico de hoje é aquele que disponibiliza arte, seja esta gráfica, musical, literária, etc, e divulga idéias. O destino, a razão de ser de qualquer manifestação artística, é sua propagação, a sensibilização das pessoas, sua vida em liberdade.
Passe no blog, República de Fiume, http://republicadefiume.blogspot.com , cada vez melhor . Dá para baixar a discografia completa do Stevie Wonder, do Parliament Funkadelic e do Gil Scott-Heron, entre outras. Os textos e imagens são ótimos.

Pensar não ocupa espaço.


Escrito por Maria Fernanda às 18h20
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A Dama do Lotação - Nelson Rodrigues

Às dez horas da noite, debaixo de chuva, Carlinhos foi bater na casa do pai. O velho, que andava com a pressão baixa, ruim de saúde como o diabo, tomou um susto:

— Você aqui? A essa hora?

E ele, desabando na poltrona, com profundíssimo suspiro:

— Pois é, meu pai, pois é!

— Como vai Solange? - perguntou o dono da casa. Carlinhos ergueu-se; foi até a janela espiar o jardim pelo vidro. Depois voltou e, sentando-se de novo, larga a bomba:

— Meu pai, desconfio de minha mulher.

Pânico do velho:

— De Solange? Mas você está maluco? Que cretinice é essa?

O filho riu, amargo:

— Antes fosse, meu pai, antes fosse cretinice. Mas o diabo é que andei sabendo de umas coisas... E ela não é a mesma, mudou muito.

Então, o velho, que adorava a nora, que a colocava acima de qualquer dúvida, de qualquer suspeita, teve uma explosão:

— Brigo com você! Rompo! Não te dou nem mais um tostão!

Patético, abrindo os braços aos céus, trovejou:

— Imagine! Duvidar de Solange!

O filho já estava na porta, pronto para sair; disse ainda:

— Se for verdade o que eu desconfio, meu pai, mato minha mulher! Pela luz que me alumia, eu mato, meu pai!


A SUSPEITA


Casados há dois anos, eram felicíssimos. Ambos de ótima família. O pai dele, viúvo e general, em vésperas de aposentadoria, tinha uma dignidade de estátua; na família de Solange havia de tudo: médicos, advogados, banqueiros e, até, ministro de Estado. Dela mesma, se dizia, em toda parte, que era "um amor" ; os mais entusiastas e taxativos afirmavam: "É um doce-de-coco". Sugeria nos gestos e mesmo na figura fina e frágil qualquer coisa de extraterreno. O velho e diabético general poderia pôr a mão no fogo pela nora. Qualquer um faria o mesmo. E todavia... Nessa mesma noite, do aguaceiro, coincidiu de ir jantar com o casal um amigo de infância de ambos, o Assunção. Era desses amigos que entram pela cozinha, que invadem os quartos, numa intimidade absoluta. No meio do jantar, acontece uma pequena fatalidade: cai o guardanapo de Carlinhos. Este curva-se para apanhá-lo e, então, vê, debaixo da mesa, apenas isto: os pés de Solange por cima dos de Assunção ou vice-versa. Carlinhos apanhou o guardanapo e continuou a conversa, a três. Mas já não era o mesmo. Fez a exclamação interior: "Ora essa! Que graça!". A angústia se antecipou ao raciocínio. E ele já sofria antes mesmo de criar a suspeita, de formulá-la. O que vira, afinal, parecia pouco, Todavia, essa mistura de pés, de sapatos, o amargurou como um contato asqueroso. Depois que o amigo saiu, correra à casa do pai para o primeiro desabafo. No dia seguinte, pela manhã, o velho foi procurar o filho:

— Conta o que houve, direitinho!

O filho contou. Então o general fez um escândalo:

— Toma jeito! Tenha vergonha! Tamanho homem com essas bobagens!

Foi um verdadeiro sermão. Para libertar o rapaz da obsessão, o militar condescendeu em fazer confidências:

— Meu filho, esse negócio de ciúme é uma calamidade! Basta dizer o seguinte: eu tive ciúmes de tua mãe! Houve um momento em que eu apostava a minha cabeça que ela me traia! Vê se é possível?!


A CERTEZA


Entretanto, a certeza de Carlinhos já não dependia de fatos objetivos. Instalara-se nele. Vira o quê? Talvez muito pouco; ou seja, uma posse recíproca de pés, debaixo da mesa. Ninguém trai com os pés, evidentemente. Mas de qualquer maneira ele estava "certo". Três dias depois, há o encontro acidental com o Assunção, na cidade. O amigo anuncia, alegremente:

— Ontem viajei no lotação com tua mulher.

Mentiu sem motivo:

— Ela me disse.

Em casa, depois do beijo na face, perguntou:

— Tens visto o Assunção?

E ela, passando verniz nas unhas:

— Nunca mais.

— Nem ontem?

— Nem ontem. E por que ontem?

— Nada,

Carlinhos não disse mais uma palavra; lívido, foi no gabinete, apanhou o revólver e o embolsou. Solange mentira! Viu, no fato, um sintoma a mais de infidelidade. A adúltera precisa até mesmo das mentiras desnecessárias. Voltou para a sala; disse à mulher entrando no gabinete:

— Vem cá um instantinho, Solange.

— Vou já, meu filho.

Berrou:

— Agora!

Solange, espantada, atendeu. Assim que ela entrou, Carlinhos fechou a porta, a chave. E mais: pôs o revólver em cima da mesa. Então, cruzando os braços, diante da mulher atônita, disse-lhe horrores. Mas não elevou a voz, nem fez gestos:

— Não adianta negar! Eu sei de tudo! E ela, encostada à parede, perguntava:

— Sabe de que, criatura? Que negócio é esse? Ora veja!

Gritou-lhe no rosto três vezes a palavra cínica! Mentiu que a fizera seguir por um detetive particular; que todos os seus passos eram espionados religiosamente. Até então não nomeara o amante, como se soubesse tudo, menos a identidade do canalha. Só no fim, apanhando o revolver, completou:

— Vou matar esse cachorro do Assunção! Acabar com a raça dele!

A mulher, até então passiva e apenas espantada, atracou-se com o marido, gritando:

— Não, ele não!

Agarrado pela mulher, quis se desprender, num repelão selvagem. Mas ela o imobilizou, com o grito:

— Ele não foi o único! Há outros!


A DAMA DO LOTAÇÃO


Sem excitação, numa calma intensa, foi contando. Um mês depois do casamento, todas as tardes, saia de casa, apanhava o primeiro lotação que passasse. Sentava-se num banco, ao lado de um cavalheiro. Podia ser velho, moço, feio ou bonito; e uma vez - foi até interessante - coincidiu que seu companheiro fosse um mecânico, de macacão azul, que saltaria pouco adiante. O marido, prostrado na cadeira, a cabeça entre as mãos, fez a pergunta pânica:

— Um mecânico?

Solange, na sua maneira objetiva e casta, confirmou:

— Sim.

Mecânico e desconhecido: duas esquinas depois, já cutucara o rapaz: "Eu desço contigo". O pobre-diabo tivera medo dessa desconhecida linda e granfa. Saltaram juntos: e esta aventura inverossímil foi a primeira, o ponto de partida para muitas outras. No fim de certo tempo, já os motoristas dos lotações a identificavam à distância; e houve um que fingiu um enguiço, para acompanhá-la. Mas esses anônimos, que passavam sem deixar vestígios, amarguravam menos o marido. Ele se enfurecia, na cadeira, com os conhecidos. Além do Assunção, quem mais?

Começou a relação de nomes: fulano, sicrano, beltrano... Carlinhos berrou: "Basta! Chega!". Em voz alta, fez o exagero melancólico:

— A metade do Rio de Janeiro, sim senhor!

O furor extinguira-se nele. Se fosse um único, se fosse apenas o Assunção, mas eram tantos! Afinal, não poderia sair, pela cidade, caçando os amantes. Ela explicou ainda que, todos os dias, quase com hora marcada, precisava escapar de casa, embarcar no primeiro lotação. O marido a olhava, pasmo de a ver linda, intacta, imaculada. Como e possível que certos sentimentos e atos não exalem mau cheiro? Solange agarrou-se a ele, balbuciava: "Não sou culpada! Não tenho culpa!". E, de fato, havia, no mais íntimo de sua alma, uma inocência infinita. Dir-se-ia que era outra que se entregava e não ela mesma. Súbito, o marido passa-lhe a mão pelos quadris: — "Sem calça! Deu agora para andar sem calça, sua égua!". Empurrou-a com um palavrão; passou pela mulher a caminho do quarto; parou, na porta, para dizer:

— Morri para o mundo.


O DEFUNTO


Entrou no quarto, deitou-se na cama, vestido, de paletó, colarinho, gravata, sapatos. Uniu bem os pés; entrelaçou as mãos, na altura do peito; e assim ficou. Pouco depois, a mulher surgiu na porta. Durante alguns momentos esteve imóvel e muda, numa contemplação maravilhada. Acabou murmurando:

— O jantar está na mesa.

Ele, sem se mexer, respondeu:

— Pela ultima vez: morri. Estou morto.

A outra não insistiu. Deixou o quarto, foi dizer à empregada que tirasse a mesa e que não faziam mais as refeições em casa. Em seguida, voltou para o quarto e lá ficou. Apanhou um rosário, sentou-se perto da cama: aceitava a morte do marido como tal; e foi como viúva que rezou. Depois do que ela própria fazia nos lotações, nada mais a espantava. Passou a noite fazendo quarto. No dia seguinte, a mesma cena. E só saiu, à tarde, para sua escapada delirante, de lotação. Regressou horas depois. Retomou o rosário, sentou-se e continuou o velório do marido vivo.


Escrito por Maria Fernanda às 02h58
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EU ACHO A LOUCURA UMA COISA NORMAL


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Escrito por Maria Fernanda às 23h25
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Músicas de Amor - Uma história de alegria insuportável com uma pitada de vergonha própria


Segundo Kleiderman, eu literalmente entrego as peripécias dos amigos neste blog, mesmo dando a eles nomes fictícios. Kleiderman inventou para si mesmo este incrível pseudônimo, que aqui reaproveito. Ele escreve num blog junto com o Eymael, um blog sensacional do qual sempre falo aqui. Sinto uma certa vergonha ao saber que alguns amigos passam pra ler, principalmente o Kleiderman e o Eymael, que têm um blog tão bom. Aliás o pseudônimo Kleiderman é demais! Lembra o Richard Claydeman.
E outro dia a Teresa me falou: Minha mãe tem lido o seu blog!
Foi um choque. Meu Deus, que vergonha! A mãe da Teresa lendo isso.
Daí penso: Por que escrevo se depois leio e acho extremamente uó? E ainda assim, deixo ali, ao dispor do olhar alheio? A única coisa que concluo é que isso se trata de um pequeno exorcismo, a fim de expulsar o demo deste corpinho que não lhe pertence.
Mas não penso em queimar o filme dos amigos. O que acontece é que são importantíssimos na minha vida: me fazem viver momentos de felicidade inenarráveis.
Outro dia, depois de ouvir o Eymael tocar no Berlim, fomos embora, eu, Antônia e Teresa. Eu, como personal driver, apenas dei a partida, liguei o som, suspirei e segui, perdida na avenida, na própria cidade natal. Acontece que o shuffle do som estava inspirado aquele dia e tocou uma seqüência de músicas linda. Todas músicas de amor, com o Curtis Mayfield, o Jorge Ben, o Otis Redding, o Al Green, o Michael...
Música só é música se for de amor. Cada uma das reginas pensava em suas questões do coração, queriam se entender. Eu pensava nos últimos casinhos que deram em nada, mas pensava principalmente no amigo do amigo. Marquei um encontro com o amigo há um tempo. Ao encontrar a criatura tomei um golpe. Fiquei chocada com o amigo dele. Olhava pro amigo do amigo e só pensava: O que é isso?, incrédula. Fiquei tão atrapalhada que senti vergonha alheia de mim mesma. E o pior: não consegui trocar uma palavra significativa com ele.
Às vezes o vejo. Ou então em vários carros, a pé na rua, na cara de todo cara que passa na minha frente; fatos que constituem um caso grave, gravíssimo, de ilusão idiótica. O que me encantou foi o olhar do cara, o sorriso... nada demais, eu nem o conheço. Por que fico atrapalhada então, sem saber o que dizer? Eu queria me entender!
- Billi, nem sempre a gente se entende, mas não tem problema. As pessoas sonhadoras como nós têm dessas coisas. – falou a Antônia em solidariedade. Solidariedade que foi fundamental para amainar o meu sentimento de inadequação.
Lembro de quando resolvi cursar artes, e ouvi uma enxurrada de poréns. É difícil, é impossível trabalhar com arte, talvez você não consiga - isto é o que ouvi. Sem querer acreditei e desisti, e fiquei extremamente infeliz profissionalmente. Depois chutei o balde e o trabalho que me sufocava o espírito e larguei tudo, para tentar fazer o que estou a fim. Mesmo assim ainda me sinto inadequada, ainda não passou. Às vezes eu não me entendo.
Tocava You are the sunshine of my life, do Stevie. Quando vimos, estávamos quase na Vila Maria, nada haver com nosso destino. Esquecemos de tudo para ouvir as músicas de amor, numa alegria insuportável. Sem querer entender mais nada.
Agora chega a parte do texto em que releio algumas outras partes e penso: Por que eu faço isso se vou achar uó depois? E que vergonha da mãe da Teresa. E do Kleiderman.


Escrito por Maria Fernanda às 21h20
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A magnitude é plena


Outro dia falei que não há nada pior que o nada. Retiro o que disse. Há sim coisas muito piores que o nada. Se dentro do tudo há coisas desagradabilíssimas, e o nada é simplesmente a ausência, certas coisas bem que poderiam passar a fazer parte de nada.
Esta semana provou ser a semana mais esdrúxula da minha vida. O naipe dos acontecimentos é justamente do tipo que eu gostaria que fizesse parte desta coisa imensurável, inominável que denominam Nada. Não vou nem comentar, mas sei de uma coisa: é o auge do retorno de Saturno. Imaginem que descobri recentemente que os desdobramentos deste evento astrológico se prolongam pelo período de anos. No momento em que eu já não agüentava mais, as coisas ficaram assustadoramente periclitantes e agressivas, zoando múltiplos aspectos do meu viver. Pelo que entendo isso faz parte do teste. Então vamos lá.
Nem tudo é lama porém, e do caos e da lama surgem pessoas, coisas e lembranças inesperadas, porém vitais no processo saturnino.
Tudo começou com um programa do Discovery, ontem, em que um desses “tarados da natureza” resolve conviver com uma alcatéia. Os “tarados da natureza” são esses caras que perdem a noção em ambiente bucólico. Temos o caçador de crocodilos e o homem-urso como exemplos. Tudo fica mais bizarro quando a criatura, o “tarado”, começa a conviver com os lobos como se fosse um deles: comendo carne crua, de quatro, barriga pra cima mostrando submissão, etc. Deu uma certa vergonha alheia, um constrangimento, que foi logo substituído por outra lembrança, importantíssima.
Lembrei do Waldick Soriano, que morreu ontem, e da música “Eu não sou cachorro não”. Uma pena o Waldick ter morrido para que eu lembrasse dessa canção que eu tanto precisava ouvir. Se nem um cão poderia ser “maltratado assim”, quanto menos os humanos. E eu gosto de cães, e muito mais de humanos.
E isso me fez lembrar de Waldick, um amigo que não mora mais em São Paulo, cujo apelido é Travesti de Interlagos.
Por sua vez, este apelido me lembrou do incrível filme que assisti no fim da semana passada. Vertigo, traduzido como Um corpo que cai, de Hitchcock. Ainda tive a oportunidade de assisti-lo projetado no estúdio de uns amigos, como um cinema, só que com a possibilidade de fumar um, o que salientou as qualidades psicodélicas do filme. Foi incrível: paisagens lindas, fotografia maravilhosa, a trilha arrepiante, os efeitos psicodélicos, a atriz, Kim Novak, uma loira platinada e magnânima. Quem não chapou assistia com atenção total. Alguém falou:
-Ela tem sua magnitude, mas parece um travesti!
De fato, as sobrancelhas pintadas de marrom e a voz nasal e grave de Kim causavam este efeito.
-Um travesti de coque. – completei
Um travesti de coque é um ser vago, espectral, nunca dantes visto, talvez inexistente. Isso ficou na minha cabeça, como uma obsessão. Tudo no filme era sincronicidade, assim como na vida. Imaginem que no auge da película, uma cena de amor e traição, um mega blaster pedaço de mármore cai com estrondo e desconecta o fio do projetor. Mais um corpo que cai.
A magnitude do travesti de coque, por sua vez, me lembrou de uma viagem. Estávamos eu e vários amigos em Caraíva, numa época em que ninguém ia pra lá. Era lua nova e o céu tinha todas as estrelas e mais algumas. Chovia estrela cadente. E cada vez que caía uma, de um e um minuto aproximadamente, um dos amigos soltava a frase: A magnitude é plena! E depois de uns 10 segundos acrescentava: Soberana!
Seu apelido é, até hoje, Magnitude.
Mas ele tinha razão. Nada importa mais do que a magnitude plena e soberana.
E lá, na magnitude celestial estava Saturno em sua plenitude, talvez arquitetando seus planos para mim.
Lembro-me da primeira vez que comi cogumelo. Comi dois: lindos, brancos, de cor amarela brilhante em cima. No princípio, me isolei. Fiquei aturdida porque enquanto via as imediações, o local onde eu estava, via simultaneamente um corredor com várias portas. Eu tinha de escolher uma delas, e me senti terrivelmente sozinha naquela situação, tanto quanto agora. Como não creio em alucinação, mas em percepção, sabia que tudo era real, que a verdade estava naquelas simbologias. Pensei em ir embora, me senti terrivelmente mal. Depois resolvi rezar,pedindo aos seres espirituais para que me orientassem. E então venci minha resistência a pedir socorro. Pedi um suco a um dos amigos que estava perto. Era meu jeito de pedir ajuda sem parecer muito que estava pedindo. Ele foi maravilhoso naquele momento e reconheci toda a sua boa vontade. Um simples suco, ou melhor, uma intervenção aparentemente insignificante de um amigo foi o ato mais singelo e necessário para aquele momento. Depois disso, saí lá fora, sentindo-me outra, uma eu muito melhor. O dia estava nublado, meio tristonho. Choveu torrencialmente durante os cinco dias anteriores, e ninguém agüentava mais.
E então, do nada, veio o Sol. Era como se Deus tivesse aberto uma nuvem com as mãos, deixando passar o raio. Eu podia até ouvir os acordes espectrais. Foi lindo. E é isso o que quero e espero que aconteça agora, deveras!!!
Isso me faz pensar que vou passar no teste, que estou quase lá...


Escrito por Maria Fernanda às 23h35
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Pesquisa Antropológica – Com quem você rolaria na grama apesar de?



Segundo meu amigo Eymael, a vida em sociedade é um fingimento descarado 90% do tempo. Pessoas fingem que são uma coisa quando são outra, fingem que não querem...
Isso vale para muita coisa, mas focalizemos na problemática das atrações. A maioria quer fornicar, mas finge que não, faz olhares blasé, um jeito cool, há o medo da rejeição, da não correspondência de afetos... Enfim, nem sempre as pessoas bancam a própria vontade.
Por isso vence aquele que ousa.

Conheço casos de pessoas que se olham durante uma eternidade e nunca acontece nada porque ficam intimidadas diante da auto-exposição. Convenhamos que isto é enfadonho. Sem falar na falta de criatividade, outra coisa que afeta a sociedade em toda a sua magnitude. Esta coisa do “Vem sempre aqui?” simplesmente não orna, nunca ornou. Por isso, aquele que tem criatividade vence, e aquele que ousa rola na grama. Escrevo isso porque tenho vivido e testemunhado, com esses olhos que a terra há de comer, um incrível e crescente número de xavecos mais esquisitos do mundo. E a maioria deles é bem-sucedida.

Num dos posts abaixo contei como um amigo, Bob, fez o anti-xaveco. Foi atacado por uma anti-musa, e fez que não ia. A garota não desistiu, o que acho admirável. Pelo menos ela estava sendo descarada em prol de si mesma. Até agarrou a perna de Bob. Este inventou um canal solto na boca, para despistá-la. Ora, mais tarde fiquei sabendo que nosso Bob Dylan brasileiro sucumbiu, apesar da aparente resistência. Estaria Bob constrangido pelo descaramento feminino?

O Flavinho, por exemplo, é um amigo especializado em xavecos chulos. Não vou descrever aqui toda a atitude do rapaz. Ele estava afim de Tereza, e agiu como age sempre: indiscretamente. Ela não deu confiança. Flavinho, no momento mais suave de sua atuação encostava-se na blusa de veludo de Tereza e perguntava, como um Herchkovitch: “Mas que tecido é esse? Esta BLUSA é tão... gostosa!!!” , rindo.
Sei... a blusa. Apesar da aparente repulsa de Tereza, minha intuição dizia: Não sei porque, mas acho que ele vai vencer. E para reiterar a eficácia de minhas faculdades intuitivas, logo depois soube que ele venceu.
E fica a pergunta: Por que?

Só pode ser porque diante do nada ele foi destemido, mesmo agindo conforme seu jeito chulo de ser. E não há nada pior que o nada. Há quem ache que as mulheres, em especial, gostam de ouvir besteiras. Talvez algumas gostem. Não sei. Posso apenas falar por mim, e não gosto. Mas e se a criatura que fala a maior besteira do mundo no momento delicado da conquista for interessante? Como nossa existência ocorre numa época de pseudo-liberação afetiva e sexual, noto que as pessoas ficam confusas diante de um curso de ação que seja ao mesmo tempo apropriado e impressionante.

Um conhecido me contou a respeito de uma aproximação estranha com 100% de aproveitamento. Aprendeu com um velho, que vira certa vez num bar. O velho olhava fixamente para uma mulher, e depois de muito olhar, aproximou-se, pôs uma das mãos na parede (veja que há toda uma coreografia, uma parede, um jogo de olhares), olhou bem pra ela e disse a primeira e bombástica frase: Te quero nua. Uma única e primeira frase... com a qual venceu. Para a total surpresa do observador, que em ocasiões posteriores, sem saber como e o que dizer, resolveu recorrer a esta tática periculosa. Segundo ele, as duas vezes em que a tentou, venceu, e só não tentará de novo para conservar o mito do xaveco 100% aproveitamento. E a frase tem que ser a primeira dirigida à mulher em questão, caso contrário não vale. O processo é artístico, quase marcial, e com regras rígidas. Creio eu que a eficácia desta abordagem é inversamente proporcional ao grau de politicamente correto. Não sei se um dia alguma mulher usou a frase Te quero nu. Mas já presenciei uma amiga propondo a um rapaz: Hey, você quer fornicar comigo? e foi prontamente atendida. Registro aqui minha curiosidade: Como a população masculina reagiria diante da aplicação desta tática? Apenas um interesse antropológico de minha parte.

Já vivi xavecos como: “E aí? O que você quer fazer? Podemos ir a um bar... Podemos fornicar...” Outra vez este verbo. Lembro de ter respondido com um Ok, afinal o rapaz em questão muito me interessava. Não achei ruim. Pelo contrário, o comportamento direto resolve muitas pendências e é absolutamente espontâneo, num tipo de situação em que a espontaneidade geralmente inexiste.
Muitos ficam horrorizados com isso, mas diante do nada, já é muito. E não há nada pior que o nada. Para mim, não há proposta mais indecente que um pedido para participar de uma campanha política. Mesmo assim, existem os xavecos constrangedores. Conheço pessoas, principalmente mulheres, que rejeitariam por completo este tipo de aproximação, apenas por causa do conteúdo verbal. Porém, regina, e se a tentativa viesse justamente de uma pessoa que interessa? Quem negará suas vontades?

A resposta para este dilema jaz na resposta da seguinte pergunta: Você rolaria na grama com esta pessoa? Apesar do conteúdo verbal explícito ou até mesmo chulo?
Sim. O ato de rolar na grama sugere uma imagem passional em uma cena bucólica, o cabelo na cara, pessoas rolando na grama...
Rolaria?

Escrito por Maria Fernanda às 17h11
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Idiotas da Objetividade


Existe algo mais inútil que arte? Existem os AB shaper, os adipômetros, os cortadores instantâneos de vegetais, toda uma gama de produtos de utilidade discutível. Mas diante da arte, estes são aparelhos utilíssimos, indispensáveis. Por que há tanto preconceito com a inutilidade então? Por que tudo tem que ser útil e fazer alguma coisa? Deve ser porque o inútil nos faz pensar...

Outro dia vi o filme “Eu, você, todos nós”, que mostra, além de outras coisas, como funciona o mercado de arte. Ou seja, assim como a Revista Caras. Veja este filme.

De fato, vivemos em sistemas que se preocupam sobretudo com a contenção das formas de arte.

Ora, o primeiro artista era aquele nego que pixava as cavernas seja lá por qual motivação. Se foi um rito de atração da caça ou um registro dos acontecimentos, não sabemos ao certo. Todo agrupamento humano tinha entre os seus um artista, um curandeiro, um ser com métodos não ortodoxos diante da vida. Hoje, o artista tem que conceituar, explicar-se deveras antes de finalizar seu produto artístico. O próprio olhar sobre a arte é caracterizado por fazer dela um produto, e não um elemento transformador. Pixar ou desenhar na rua o que se pensa é algo inadmissível para a manada de seres inexpressivos que formam a sociedade, porque é uma manifestação que não constitui um conceito e muito menos um produto. A idéia simplesmente está lá, para quem quiser pensar sobre ela. É grátis, e não ocupa espaço.

Antes mesmo de se expressar, o artista de hoje tem que elaborar um conceito que explique, assim como um texto ou folheto descritivo, sua atividade, porque de outra forma ninguém vai entender. Mas quem disse que alguém tem que entender? Lembro-me das aulas de arte e do papo do conceito. Um papo chato, limitador de qualquer ato criativo e não convencional. Eu não quero entender o que pensou o Malevich, quero simplesmente olhar e pensar outra coisa. Talvez ele me faça pensar em algo que ele jamais pensou...

Na verdade, o que se espera do ser humano é que este seja previsível. Por isso a limitação e o não incentivo à arte, seja ela de qualquer natureza. E assim foi criada uma geração conceitual de pseudo-artistas, de picaretas insensíveis, pessoas incapazes de causar emoção. Por exemplo, o Nuno Ramos, um cara que instala dois burros dentro do espaço de exposição, no qual uma locução irritante se repete por horas a fio. Ele é quem deveria ter se confinado no espaço, com fones de ouvido para se ouvir a si mesmo consigo próprio, ad eternum. Ou o cara que amarrou um cachorro até que este morresse de fome na galeria. Cruel e arbitrário, como qualquer outra atividade em que se usa um ser vivo para justificar o horror contemporâneo. Isto não é arte, é crueldade conceitual justificada. A pixação me emociona muito mais, como um renascimento das simbologias das cavernas, ou a Internet, como espaço virtual em que escritores e artistas divulgam seus trabalhos e idéias.

O pó de Van Gogh se revira na tumba, toda vez que alguém quer saber do conceito. O pó dos renascentistas se revira, de Miró, de Klimt, de Kafka, de Jimmy Hendrix e Beethoven. Até a arte culinária está impregnada pela praga conceitual. O Nelson, cujo pó também deve se agitar no sarcófago diante do conceito, criou uma expressão que ilustra este comportamento que tudo quer explicar e justificar: O idiota da objetividade. Este ser, que grassa por aí, não admira as belezas da invenção, do acaso, das infinitas possibilidades. Para ele, tudo tem de vir com uma brochura que explique como funciona, para que serve, numa espécie de manual de instruções. O artista não é um George Foreman grill. Ninguém é. Aliás artista é uma palavra corrompida. Chamam de artista o fulano que participou do BBB, as celebridades de Quem, que nunca emocionaram ninguém, a modelo e atriz, este ser que brota do asfalto. Dê uma googlada com a palavra artista e veja por si mesmo.

Arte, porém, é tudo aquilo que materializa o transcendente, que faz com que o ser humano olhe sua medíocre vidinha social e política por outra perspectiva, e assim vislumbre o Universo com um pouco mais de verdade. O sujeito que gosta de fazer ou apreciar arte, no fundo, é alguém que quer pensar além do que é permitido. Porque temos um limite pra pensar. Na verdade, temos todos que pensar igual, segundo o estado e o poder. Todos temos que gostar do conceito do Créu, da Ivete Sangalo e do Dado Dolabela. E todos temos que votar em idiotas da objetividade, porque o não votar é tido como um quase crime, uma inconseqüência. Ora, muito mais inconseqüente é votar em alguém em quem não se confia, só por votar. E aí a criatura eleita chega lá e nada faz, por vontade de nada fazer ou por impossibilidade diante de um sistema arquitetado para favorecer a poucos, muito poucos. Não vote mais, regina! Nunca mais!

Talvez, a coisa mais absurda e incongruente na contenção da manifestação artística é a limitação mercadológica da música, a forma de expressão que talvez seja a mais transcendental e imaterial de todas. Como um sujeito pode impedir a vibração e propagação das notas musicais? Estou certa de que o músico quer mais é que seu trabalho seja conhecido. O artista, quando cerceado, entra em profunda amargura. O Van Gogh, por exemplo, se matou. Ele não tinha nenhuma possibilidade de ser quem era, na época em que foi. Mas foi incrível, e até hoje permanece um ser único neste mundo formado por gado.

O artista verídico de hoje é aquele que disponibiliza arte, seja esta gráfica, musical, literária, etc, e divulga idéias. O destino, a razão de ser de qualquer manifestação artística, é sua propagação, a sensibilização das pessoas, sua vida em liberdade.
Passe no blog, República de Fiume, http://republicadefiume.blogspot.com , cada vez melhor . Dá para baixar a discografia completa do Stevie Wonder, do Parliament Funkadelic e do Gil Scott-Heron, entre outras. Os textos e imagens são ótimos.

Pensar não ocupa espaço.


Escrito por Maria Fernanda às 18h20
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A Dama do Lotação - Nelson Rodrigues

Às dez horas da noite, debaixo de chuva, Carlinhos foi bater na casa do pai. O velho, que andava com a pressão baixa, ruim de saúde como o diabo, tomou um susto:

— Você aqui? A essa hora?

E ele, desabando na poltrona, com profundíssimo suspiro:

— Pois é, meu pai, pois é!

— Como vai Solange? - perguntou o dono da casa. Carlinhos ergueu-se; foi até a janela espiar o jardim pelo vidro. Depois voltou e, sentando-se de novo, larga a bomba:

— Meu pai, desconfio de minha mulher.

Pânico do velho:

— De Solange? Mas você está maluco? Que cretinice é essa?

O filho riu, amargo:

— Antes fosse, meu pai, antes fosse cretinice. Mas o diabo é que andei sabendo de umas coisas... E ela não é a mesma, mudou muito.

Então, o velho, que adorava a nora, que a colocava acima de qualquer dúvida, de qualquer suspeita, teve uma explosão:

— Brigo com você! Rompo! Não te dou nem mais um tostão!

Patético, abrindo os braços aos céus, trovejou:

— Imagine! Duvidar de Solange!

O filho já estava na porta, pronto para sair; disse ainda:

— Se for verdade o que eu desconfio, meu pai, mato minha mulher! Pela luz que me alumia, eu mato, meu pai!


A SUSPEITA


Casados há dois anos, eram felicíssimos. Ambos de ótima família. O pai dele, viúvo e general, em vésperas de aposentadoria, tinha uma dignidade de estátua; na família de Solange havia de tudo: médicos, advogados, banqueiros e, até, ministro de Estado. Dela mesma, se dizia, em toda parte, que era "um amor" ; os mais entusiastas e taxativos afirmavam: "É um doce-de-coco". Sugeria nos gestos e mesmo na figura fina e frágil qualquer coisa de extraterreno. O velho e diabético general poderia pôr a mão no fogo pela nora. Qualquer um faria o mesmo. E todavia... Nessa mesma noite, do aguaceiro, coincidiu de ir jantar com o casal um amigo de infância de ambos, o Assunção. Era desses amigos que entram pela cozinha, que invadem os quartos, numa intimidade absoluta. No meio do jantar, acontece uma pequena fatalidade: cai o guardanapo de Carlinhos. Este curva-se para apanhá-lo e, então, vê, debaixo da mesa, apenas isto: os pés de Solange por cima dos de Assunção ou vice-versa. Carlinhos apanhou o guardanapo e continuou a conversa, a três. Mas já não era o mesmo. Fez a exclamação interior: "Ora essa! Que graça!". A angústia se antecipou ao raciocínio. E ele já sofria antes mesmo de criar a suspeita, de formulá-la. O que vira, afinal, parecia pouco, Todavia, essa mistura de pés, de sapatos, o amargurou como um contato asqueroso. Depois que o amigo saiu, correra à casa do pai para o primeiro desabafo. No dia seguinte, pela manhã, o velho foi procurar o filho:

— Conta o que houve, direitinho!

O filho contou. Então o general fez um escândalo:

— Toma jeito! Tenha vergonha! Tamanho homem com essas bobagens!

Foi um verdadeiro sermão. Para libertar o rapaz da obsessão, o militar condescendeu em fazer confidências:

— Meu filho, esse negócio de ciúme é uma calamidade! Basta dizer o seguinte: eu tive ciúmes de tua mãe! Houve um momento em que eu apostava a minha cabeça que ela me traia! Vê se é possível?!


A CERTEZA


Entretanto, a certeza de Carlinhos já não dependia de fatos objetivos. Instalara-se nele. Vira o quê? Talvez muito pouco; ou seja, uma posse recíproca de pés, debaixo da mesa. Ninguém trai com os pés, evidentemente. Mas de qualquer maneira ele estava "certo". Três dias depois, há o encontro acidental com o Assunção, na cidade. O amigo anuncia, alegremente:

— Ontem viajei no lotação com tua mulher.

Mentiu sem motivo:

— Ela me disse.

Em casa, depois do beijo na face, perguntou:

— Tens visto o Assunção?

E ela, passando verniz nas unhas:

— Nunca mais.

— Nem ontem?

— Nem ontem. E por que ontem?

— Nada,

Carlinhos não disse mais uma palavra; lívido, foi no gabinete, apanhou o revólver e o embolsou. Solange mentira! Viu, no fato, um sintoma a mais de infidelidade. A adúltera precisa até mesmo das mentiras desnecessárias. Voltou para a sala; disse à mulher entrando no gabinete:

— Vem cá um instantinho, Solange.

— Vou já, meu filho.

Berrou:

— Agora!

Solange, espantada, atendeu. Assim que ela entrou, Carlinhos fechou a porta, a chave. E mais: pôs o revólver em cima da mesa. Então, cruzando os braços, diante da mulher atônita, disse-lhe horrores. Mas não elevou a voz, nem fez gestos:

— Não adianta negar! Eu sei de tudo! E ela, encostada à parede, perguntava:

— Sabe de que, criatura? Que negócio é esse? Ora veja!

Gritou-lhe no rosto três vezes a palavra cínica! Mentiu que a fizera seguir por um detetive particular; que todos os seus passos eram espionados religiosamente. Até então não nomeara o amante, como se soubesse tudo, menos a identidade do canalha. Só no fim, apanhando o revolver, completou:

— Vou matar esse cachorro do Assunção! Acabar com a raça dele!

A mulher, até então passiva e apenas espantada, atracou-se com o marido, gritando:

— Não, ele não!

Agarrado pela mulher, quis se desprender, num repelão selvagem. Mas ela o imobilizou, com o grito:

— Ele não foi o único! Há outros!


A DAMA DO LOTAÇÃO


Sem excitação, numa calma intensa, foi contando. Um mês depois do casamento, todas as tardes, saia de casa, apanhava o primeiro lotação que passasse. Sentava-se num banco, ao lado de um cavalheiro. Podia ser velho, moço, feio ou bonito; e uma vez - foi até interessante - coincidiu que seu companheiro fosse um mecânico, de macacão azul, que saltaria pouco adiante. O marido, prostrado na cadeira, a cabeça entre as mãos, fez a pergunta pânica:

— Um mecânico?

Solange, na sua maneira objetiva e casta, confirmou:

— Sim.

Mecânico e desconhecido: duas esquinas depois, já cutucara o rapaz: "Eu desço contigo". O pobre-diabo tivera medo dessa desconhecida linda e granfa. Saltaram juntos: e esta aventura inverossímil foi a primeira, o ponto de partida para muitas outras. No fim de certo tempo, já os motoristas dos lotações a identificavam à distância; e houve um que fingiu um enguiço, para acompanhá-la. Mas esses anônimos, que passavam sem deixar vestígios, amarguravam menos o marido. Ele se enfurecia, na cadeira, com os conhecidos. Além do Assunção, quem mais?

Começou a relação de nomes: fulano, sicrano, beltrano... Carlinhos berrou: "Basta! Chega!". Em voz alta, fez o exagero melancólico:

— A metade do Rio de Janeiro, sim senhor!

O furor extinguira-se nele. Se fosse um único, se fosse apenas o Assunção, mas eram tantos! Afinal, não poderia sair, pela cidade, caçando os amantes. Ela explicou ainda que, todos os dias, quase com hora marcada, precisava escapar de casa, embarcar no primeiro lotação. O marido a olhava, pasmo de a ver linda, intacta, imaculada. Como e possível que certos sentimentos e atos não exalem mau cheiro? Solange agarrou-se a ele, balbuciava: "Não sou culpada! Não tenho culpa!". E, de fato, havia, no mais íntimo de sua alma, uma inocência infinita. Dir-se-ia que era outra que se entregava e não ela mesma. Súbito, o marido passa-lhe a mão pelos quadris: — "Sem calça! Deu agora para andar sem calça, sua égua!". Empurrou-a com um palavrão; passou pela mulher a caminho do quarto; parou, na porta, para dizer:

— Morri para o mundo.


O DEFUNTO


Entrou no quarto, deitou-se na cama, vestido, de paletó, colarinho, gravata, sapatos. Uniu bem os pés; entrelaçou as mãos, na altura do peito; e assim ficou. Pouco depois, a mulher surgiu na porta. Durante alguns momentos esteve imóvel e muda, numa contemplação maravilhada. Acabou murmurando:

— O jantar está na mesa.

Ele, sem se mexer, respondeu:

— Pela ultima vez: morri. Estou morto.

A outra não insistiu. Deixou o quarto, foi dizer à empregada que tirasse a mesa e que não faziam mais as refeições em casa. Em seguida, voltou para o quarto e lá ficou. Apanhou um rosário, sentou-se perto da cama: aceitava a morte do marido como tal; e foi como viúva que rezou. Depois do que ela própria fazia nos lotações, nada mais a espantava. Passou a noite fazendo quarto. No dia seguinte, a mesma cena. E só saiu, à tarde, para sua escapada delirante, de lotação. Regressou horas depois. Retomou o rosário, sentou-se e continuou o velório do marido vivo.


Escrito por Maria Fernanda às 02h58
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Os perigos de atuar

Soube que o bafômetro detecta bombom de licor e listerine. Inclusive um sujeito foi para a delega por ter se esmerado em sua higiene bucal. Se bochechar, não dirija! Eu já suspeitava que a coisa criaria contornos patéticos. O que veremos agora é um festival da propina e de pessoas fazendo caminhos esdrúxulos, a fim de evitar as blitze.

Pois bem, voltando à minha reunião com os padres... O padre, graças a Deus, apenas abençoou a reunião e deixou, eu e o designer gráfico, na presença da regina responsável pela comunicação e marketing. Foi bom, porque o padre não era objetivo, falava pausadamente e nada com nada, e mais uns 10 minutos em sua presença me deixariam impaciente.
Ao contrário do que imaginei, não fui esculachada. Discutimos algumas coisas que eu teria de inserir no texto e logo depois ela passou para a análise dos layouts.

- Esse está bom, este ruim, este precisa mudar...

Nisso, surgiu uma página com fotos de famílias:

- Precisamos verificar se estas famílias são politicamente corretas...

Eu e o designer nos entreolhamos e não dissemos nada, atuando em prol do bem-estar geral. Mas a regina prosseguiu:

- Pois é, uma vez achei uma foto incrível, muito boa mesmo, de uma garota em primeiro plano fazendo a prova do vestibular. Levei-a até o padre, e disse: Olha padre, que foto linda pra publicação semanal sobre vestibular!
- Esta não pode!- rebateu o padre.
- Por que?
- Porque esta aluna é meio putinha...
- O que tem demais padre? É dela, deixe-a dar pra quem ela quiser...

Mas ele não autorizou. E então publiquei uma foto tosca mesmo. – continuou a heróica regina.

No íntimo eu pensava: Que filho da puta! Eu sabia! Essa coisa de padre é uma hipocrisia do começo ao fim.
E digo isso com toda a propriedade: recentemente descobri que sou bisneta de padre. Sim. Depois da morte de meu avô, que jamais citou qualquer informação sobre pai e mãe, descobrimos que ele tinha um complexo enrustido de vira-lata. Filho de uma mãe muderna demais para os moldes da época com um padre, ele certamente sofria de vergonha alheia de seus progenitores. E o padre, além de meu avô, teve mais 4 filhos com 3 mulheres. Ok, ao menos não pegava criancinhas...

Ora, para alguém que estava escrevendo textos sobre educação, foi uma brochada pedagógica. A vontade que tive era de inserir frases no texto como: Cuidado, Dona Neide, podem querer comer o seu filho e ainda chamar sua filha de puta... Atenção Dona Palmira...

Eu não sei a cara que fiz. Só vi a cara constrangida do designer. Não sabíamos se o constrangimento vinha do vocabulário chulo do padre, ou de inesperadamente ouvir uma história daquelas em pleno território episcopal. Queria ter um espelho pra ver minha cara. Mas suspeito que atuei em nome da diplomacia, um indício da hipocrisia que resta em mim. Tenho o hábito de atuar em dois tipos de situação, ambas por insegurança: em situações que necessitam uso de diplomacia, quando faço uma cara absolutamente natural; ou então se eu estiver apaixonada, quando fico atrapalhadíssima, demonstro indiferença e sinto enorme dificuldade em ser quem eu sou, tornando-me assim, mais uma modelo e atriz de si mesma.
Como a maioria, infelizmente.


Escrito por Maria Fernanda às 15h25
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Sexta-feira 13 - Trauma no templo do horror

É incrível como tudo ficou melhor depois que dei um chute no patrão. A vida parece mais fácil, novas oportunidades surgem do nada, as energias voltam-se para o que realmente interessa, aquilo tudo... Até já arrumei uns freelas. Agora mesmo estou escrevendo uns textos para uns padres.
Fica aquela expectativa porém: O que acharão os padres do texto? Gostarão? Serei eu esculachada?
É uma sina em minha vida. Estudei em colégio de padre, e se não era de padre, era de freira. Eles jamais deixavam que os alunos entrassem na biblioteca master, que tinha volumes incríveis e sedutores para uma nerd como eu, e ainda por cima, era uma repressão desgraçada. Não se fazia quase nada sem ser repreendida. Não fale, não fume, não beba e não pratique sexo eram os principais preceitos e lemas clericais. Estes colégios simplesmente asseguram a transformação de qualquer nerd inofensivo numa ameaça à sociedade. Enquanto isso, eu assistia às aulas com a Dona Hulda, pior que os padres e freiras, muito pior! Uma ditadora do ballet clássico que punha um cigarro aceso debaixo das coxas das bailarinas para comprovar se estas sustentariam um degagée com dignidade. Portanto, meio que me acostumei aos comportamentos autoritários. Meio...
Mas tem uma coisa que me preocupa: Tenho uma reunião com os padres na sexta feira 13! Ou seja, um confronto no dia internacional do demo.
Será isto um bom ou mau augúrio? Devo levar uns dentes de alho no bolso? Devo pular na pia de água benta em caso de transmutações iminentes?
Jason Voorhees que nada! Eu temo é a reação do clero.
Rezem por mim.


Escrito por Maria Fernanda às 17h53
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I quit!!!

Depois de muito titubear e pesar os prós e os contras, finalmente me demiti. Enquanto uma parte de mim sente que saiu um peso do coração, outra diz: E agora, meu Deus?? Sua louca! O que será?
Assim passei o fim de semana, sem ânimo para sair, em deliberação interna.
No sábado, fui ao aniversário de um amigo, carinhosamente apelidado de Vovô Garoto. Fiquei lá na mesa extensa, na Merça, nosso bar favorito. Bebia minha água com limão, um novo drink que adotei. Não falava nada porque não sabia o que dizer. Estava absorta. Lembrei que outra vez encontrei lá um ex-namorado que não via há tempos. E eu estava em condições semelhantes. Ele me dizia: - Pensei em você hoje! Você é uma entidade! Uma entidade!- enfático. E me falava de física quântica. Entendi o porquê, mas não qual o ponto em que ele queria chegar, ele estava confuso, ou era eu. A parte da entidade, realmente não entendi até agora. Pensava nesses fatos, não sei porquê. Ouvia uma conversa aqui e outra lá. Respondia monossilabicamente. Pensava no fim de semana passado, da virada cultural. Creio que fui orientada espiritualmente a não ir. As palavras que ouvi sobre o evento foram: periclitante, insustentável, impraticável, mundo bizarro, turba enfurecida, Gladiators cancelado, embuste... Por que não fazem mais eventos como esse, para não dar a sensação de última balada da vida? É muita falta de lazer, e as pessoas vão como se estivessem na liquidação de calçados Dic. Periclitante!
O amigo que sentava ao meu lado, Bob, me alertara que estava em apuros. A garota que sentava do outro lado dele, já em estado avançado de embriaguez, investia no rapaz com um descaro admirável. Num momento em que ele se levantou, ela chegou a se abraçar na coxa do indivíduo, que me olhou com cara de pânico. Além de bêbada, pareceu-me que a garota estava aquém do ISO9000 de Bob. Comecei a ouvir a conversa, como quem está alheia. Havia um constragimento no ar, notado nas expressões dos que se sentavam nas proximidades (era uma mesa longa).
Foi então que ouvi a desculpa masculina mas irrecusável e escabrosa dos úlimos tempos. Ele, na iminência de um ataque, falava para a garota, enquanto beliscava umas castanhas num pratinho:
-Sabe o que é? Estou com um problema de canal... O dente fica meio solto, daí às vezes entra uma comida. E às vezes, ela fica lá, no buraco do dente, por sabe se lá quanto tempo, talvez um dia inteiro...
Falava isso e ao mesmo tempo mastigava, e enfiava um dedo na boca, indicando o local, como se estivesse mostrando a um dentista. Pegou um palitinho de dente, e ainda acrescentou:
-Acho que estamos num timing errado.
Esperei uns dois minutos para não dar na cara e só depois ri, alto, foi irresistível. Ninguém mais, além de mim e da garota, ouviu aquilo, e me encaravam curiosíssimos para saber o motivo daquela risada. O pior da embriaguez é a ressaca moral do dia seguinte, bem sei. E eu não queria constrangê-la. Mas aquela ousadia feminina me fascinava. E o papo do canal então! Considerei até a possibilidade de ter vivido uma alucinação auditiva. Mas depois comentei com ele que aquela desculpa era a mais original e estapafúrdia que havia ouvido em minhas três décadas de vida. Não foi alucinação!
Não durei muito no bar. Fui embora, ainda reflexiva. Cheguei em casa e tive uma bela noite de insônia, que durou até as 11 da manhã de hoje. Pensando no que fazer daqui pra frente, agora que não tenho mais um emprego chatíssimo que me dava uma suposta segurança no fim do mês. Pensando nos freelas que nunca se sabe quando vêm. Pensando se a garota vencera a resistência e o bafo hipotético de Bob (ela não desistiu até o momento em que fui embora). Dúvidas, dúvidas... E agora estou aqui, escrevendo para postar neste blog, do qual muitos dos textos considero detestáveis. Fora o endereço nada a ver, que criei numa fase socrática de minha vida. Pensando em como todas as coisas têm seu fim, e sabe-se lá do futuro.
Só sei que nada sei...


Escrito por Maria Fernanda às 19h01
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O espelho no espelho

Mal terminei de ler “A Cabra Vadia”, do Nelson, comecei “Escravas do Amor”, do mesmo, o qual devorei com sofreguidão folhetinesca. Depois desta overdose rodrigueana, peguei um livro que voltou pra mim completamente destruído, de contos absurdos, o qual caiu como uma luva para alguns fatos recentes. Não falarei das coisas escabrosas, afinal a barbárie sempre esteve por aí e, infelizmente não se sabe até quando. Ao mesmo tempo, há uma imensa quantidade de fatos pateticamente surreais. Por exemplo o lance do padre, uma loucura impraticável, incompreensível. E a CPI da sogra! Nunca um genro foi tão gentil. CPI da sogra é um nome fantástico, e lembra os nomes daquelas operações ... como a operação vampiro! E a terra tremeu no Brasil, algo incomum. Eu confesso que não senti coisa alguma, mas conheço gente que vendo um cabideiro balançar pensou em intervenção do além, e outras imaginaram ser efeitos de rivotril. Parece até uma previsão de Nostradamus, de absurdos apocalípticos: E um dia, os padres voarão... e quando a terra tremer, os santos cairão de seus altares ( Corinthians derruba o São Jorge). E, para completar, tudo na mesma semana. Agora vejam este conto, e como é mais plausível que o Jornal Nacional. O autor se chama Michael Ende, e o livro "O espelho no espelho".

O jovem médico teve permissão para tomar assento num canto da sala de tratamento, e observar o caso. No entanto, proibiram-no, em qualquer hipótese, de falar com a paciente ou de se fazer notar de qualquer outra maneira. Meditando, ele observou a maquinaria cujo sentido não conseguia compreender.
Tratava-se de uma cadeira do tipo das que são encontradas nos dentistas ou barbeiros, com a diferença de que, em seu encosto, estava parafusada uma haste niquelada vertical, entre o chão e o teto da sala de tratamento. O assento deslizava para cima e para baixo por essa haste.
A paciente que nela estava sentada, uma senhora idosa, era enorme de gorda; seu rosto estava fortemente maquiado, branco como farinha. Com uma espécie de obsessão indescritível, ela ia metendo goela abaixo todos os tipos de alimentos, os quais estavam a sua disposição em uma mesa de instrumentos móvel: tortas e pedaços de carne, linguiças e pedacinhos de peixe empanados. A cada bocado que a pessoa metia goela abaixo, a cadeira era atirada para o alto por meio de um dispositivo de catapulta e depois caía com um estrondo de bate-estacas. Quanto maior fosse o bocado, mais alto voava a cadeira com a senhora, de tal maneira que era como se ela não ficasse mais pesada e sim mais leve à medida que ia comendo os alimentos.
Como, exceto por ele e a senhora que estava na cadeira, não havia mais ninguém na sala, e como tampouco parecia provável que fosse aparecer alguém para vigiar, o jovem médico assistente atreveu-se finalmente a perguntar, a meia voz, apesar da estrita proibição:
-Com que objetivo a senhora está sendo submetida a este tratamento?
Ele precisou repetir a pergunta mais uma vez até que a mulher ouvisse e interrompesse sua atividade por um breve instante.
-Eu sofro – disse ela, esforçando-se para virar na direção dele, já que o médico estava sentado um pouco atrás dela- de gravitação progressiva. Somente a alimentação constante me deixa mais leve. Quando eu paro com isso, nem que seja por alguns segundos como agora, meu peso aumenta imediatamente. É um defeito da gravidade da Terra, entende? Alguns segundos de abstinência completa fariam com que meu esqueleto desabasse sob o peso da minha carne. Isso me repugna,mas somente a alimentação constante me deixa mais leve.
Rapidamente, como quem está perdendo alguma coisa, ela devorou um novo bocado e recomeçou o jogo do subir e descer da cadeira.
-Na certa, vão ajudá-la aqui - murmurava o jovem médico. – Logo a senhora estará bem melhor, a senhora vai ver. – Ele estava triste porque, apesar do evidente padecimento da mulher, não conseguia sentir qualquer simpatia por ela.
Como ela não respondeu, ele se levantou depois de algum tempo para examinar mais detalhadamente o aparelho. Próximo do chão, entre a haste niquelada e o encosto da cadeira móvel, havia um dispositivo que chamou sua atenção. Era um cilindro de vidro bem grande, no qual subia e descia um pistão como o de uma bomba de ar, ao ritmo da cadeira, presumivelmente para abafar o choque da cadeira ao cair. No interior desse tubo de vidro, havia um animal.
O jovem médico não estava em condições de classificar essa criatura. Contudo, sem dúvida nenhuma, tratava-se da mais feia que ele já havia visto. Assemelhava-se a uma enorme caranguejeira, pois compunha-se de um corpo em forma de esfera e uma grande quantidade de membros bem ágeis, com pêlos negros. No entanto, esses não eram rígidos como as patas dos insetos, nem divididos em articulações, mas completamente moles como os de um polvo. A cada golpe que o animal recebia, vibrando, dentro do pistão comprimido para baixo, suas incontáveis extremidades enrolavam-se de dor. O animal tentava sempre - apesar de meio anestesiado – fugir da terrível prisão. No entanto, não existia nenhuma saída em parte alguma.
O jovem médico ficou observando durante um longo tempo a maltratada criatura, e fez todos os tipo de considerações sobre até que ponto era necessário mitigar o tormento da paciente através do tormento da criatura. Não que o animal lhe tivesse provocado um sentimento de compaixão- era abominável demais para isso. Tratava-se. Isso sim, de uma postura de princípio, que consistia em demonstrar sempre um certo respeito para com a existência de todos os seres vivos, não importando a espécie a que pertencessem, o que implicava portanto, não admitir que fossem submetidos a tortura ou dores inúteis. E, como ele não via nenhuma razão para expor o animal àquela tortura, finalmente se compadeceu dele, justamente porque o bicho era horrível.
-Pare com isso! – gritou de imediato para a senhora gorda, que continuou enfiando goela abaixo bocados após bocados. – Vamos, pare com isso logo!
Mas a mulher não pareceu ouví-lo, ou talvez simplesmente não quisesse ouvir. De qualquer modo não prestou atenção às palavras dele; ao contrário, continuou se empanturrando, como que possuída por algum demônio.
Nesse momento, o jovem médico ficou irado e revoltado. Ele agarrou um instrumento niquelado que estava ao alcance de sua mão e, com vários golpes violentos, destruiu o cilindro de vidro. A cadeira parou imediatamente, coisa que a senhora quase não notou. Mastigando de boca cheia, ela lançou ao jovem médico um olhar de desaprovação, mas não interrompeu sua refeição.
Nesse meio tempo, a criatura com forma de aranha correra para a porta. O jovem médico abriu-a e deixou que ela saísse. De repente, ocorreu-lhe que ele deveria contar com a respectiva punição por aquele ato impulsivo. No entanto, não foi isso o que fez com que ele se afastasse correndo da sala.Foi muito mais uma repentina curiosidade – que ele mesmo não saberia explicar – de observar para onde a criatura se dirigia com tamanha pressa. Com espantosa consciência, o animal precipitou-se com suas incontáveis patas através dos corredores do instituto, saiu para a rua noturna e, uma vez ali, seguiu adiante, como se quisesse chegar a qualquer custo possível, a um lugar determinado.
Meio inclinado para a frente para não perder o animal de vista na escuridão. O jovem médico saiu correndo atrás da criatura através de vielas secundárias e pátios, sobre pontes e escadarias, sob portões túneis do metrô., até que finalmente a criatura parou num vestíbulo mal iluminado de um edifício com aparência miserável, sem fazer mais nenhuma menção de seguir correndo.
O jovem médico olhou inquisidoramente à sua volta. Não conseguiu imaginar o que poderia ter atraído a criatura para aquele lugar. Imediatamente. porém, concluiu que se enganara: não fora o lugar que atraíra o animal; ali, simplesmente terminava a fuga, ali estavam longe o bastante da prisão de vidro. Sim, na certa era isso. Ele não voltou a enxotar o animal. Permaneceu bem quieto, aguardando os acontecimentos.
Não fazia muito tempo que estava ali, de pé, quando viu do outro lado escuro do corredor, um segundo animal correndo na direção dele, um bicho mais ou menos do mesmo tamanho do outro, mas com uma forma completamente diferente. Mais parecia um escaravelho gordo com tenazes poderosas. Quase ao mesmo tempo, surgiu uma terceira criatura, que ultrapassava um pouco em tamanho as anteriores e que mostrava uma longínqua semelhança com um gafanhoto. Os três animais ficaram imóveis, com as cabeças viradas para o centro, de tal modo que seus corpos formavam uma estrela de três pontas no chão de ladrilhos. Pareciam não se preocupar com a presença do observador.
Durante um longo tempo, nada aconteceu, e o jovem médico começou a se admirar da própria paciência. No fundo, ele não saberia dizer o que mantinha sua expectativa em suspenso. Quando, finalmente, mais baseado na razão, decidiu ir embora, escutou algo.
Quase inaudível, pairava no ar um som que, mesmo sem prestar atenção, o médico percebeu que já ouvia há algum tempo. Mas agora, como o som lhe chamara a atenção, e ele ouvia de maneira cada vez mais nítida e clara um delicado, puro e subterrâneo trítono de tal beleza, que lágrimas de arrebatamento lhe vieram aos olhos. Seria possível que aquelas três criaturas de aparência tão repulsiva estivessem fazendo música juntas? Seria possível que elas, paradas naquele canto escuro e sujo, estivessem produzindo esse acorde mais puro que todos os acordes? Meu Deus, pensou o jovem médico, enlevado, meu Deus, que sorte indescritível!
Quando alvoreceu, a música desapareceu, embora os animais continuassem imóveis. Ainda um pouco perturbado, o jovem médico saiu à rua. Diante dele, às primeiras luzes da manhã, havia um pequeno jardim com grama pisada. Nos bancos, estavam sentadas umas dez pessoas, todas meditando, como se também tivessem escutado aquele trítono durante toda a noite. Era rostos rústicos que, nesse momento, uns após os outros, foram, levantando a vista, sorrindo para o jovem médico, mas que de alguma maneira faziam solenes sinais com a cabeça. Os homens ostentavam barbas e boinas de pele, as mulheres, lenços de cabeça, todos vestiam aventais de um linho rústico e desbotado. Quando o jovem médico chegou diante deles, viu que os aventais estavam todos recobertos de caracteres, mas eram caracteres de um idioma desconhecido para ele. Provavelmente, considerou o jovem médico, eram caracteres do alfabeto cirílico.
-Nomes? – perguntou ele, apointando para as letras. – São seus nomers?
As pessoas a quem ele se diriiu balançaram a cabeça, sorrindo, como se não tivessem compreendido; apenas acenaram, amigavelmente.
-De onde vocês vêm? – perguntou o jovem médico, articulando cada palavra lenta e claramente.
Um velho de barba branca respondeu, mas num idioma estranho. De repente uma galinha cacarejou. O jovem médico olhou espantado à sua volta, e os camponese riram benevolamente de seu espanto, mostrando-lhe uma mulher sentada no fim da fila. O jovem médico foi até lá e viu que ela havia aberto o avental, de tal modo que seus enormes seios ficaram à mostra. Na pele do peito estava pintado um ícone precioso, guarnecido em parte com folhas de ouro.
Novamente ouviu-se o cacarejo, e os camponeses riram. A mulher com os seios à mostra fez um movimento de rejeição para aqueles que riam, depois tirou um saco de trás do banco, abriu-o e estendeu-o ao jovem médico. Ele deu uma olhada lá dentro e viu que o saco estava cheio quase até a metade de pedaços de gelo. Em cima, viu uma galinha completamente depenada, que no entanto ainda estava viva e que, assim que percebeu o rosto do jovem médico inclinado em sua direção, bateu as asas e cacarejou pela terceira vez.


Escrito por Maria Fernanda às 21h16
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Veterinários

Estava no bar, conversando com amigos, quando surgiu o assunto Versões brasileiras de músicas brasileiras. O caso mais clássico é o do “Trocando de biquini sem parar”, embora eu já tenha ouvido “tocando Jimmy Cliff sem parar”. Imaginem o que é um reggae night ininterrupto madrugada adentro!
Pois bem, eis que surgiu uma versão fulminante de um refrão de Triste Bahia, de Caetano: de bandeira branca enfiada em pau forte habemus bandeira branca, quiabo e bobó. A julgar pela brasilidade inerente à Tropicália, bem que poderia ser possível uma inclusão culinária. Há também músicos como o Djavan que não fazem a menor questão de fazer sentido.
Foi então que lembraram de “Como nossos pais” de Belchior. Mas não falo da parte do mal passado, pessoa mal passada, e sim de algo ainda mais estarrecedor: Hoje sei que quem me deu a idéia de uma nova consciência e juventude, tá em casa, guardado por Deus, contando Fio-Dental.
O fato é que não sei porque lembrei nesta hora de uma crônica do Nelson, o Rodrigues, do livro “A cabra vadia”. Foi uma conexão de idéias, no mínimo, curiosa, inesperada. Há um certo romantismo disfarçado de indiferença em mim, e na verdade até sei porque lembrei, só que não quero falar. De qualquer forma, não vem ao caso, o que importa é a crônica. É um dom do Rodrigues a façanha de fazer chorar e depois rir alto num mesmo capítulo, ou até mesmo num só parágrafo. Mas voltemos à cabra.
O livro é uma compilação de crônicas, sendo que algumas delas são entrevistas imaginárias com personagens reais, que ocorrem num terreno baldio, onde pasta uma cabra vadia, conforme o nome da obra.
Segundo o autor, imaginária porque é o único tipo de entrevista em que o entrevistado é capaz de ser sincero. É terreno, e baldio, porque certas verdades só se dizem em um, e detalhe sutil, à meia-noite. E cabra porque esta não mente jamais.
É um livro que dá pena terminar. Confesso que voltei a ler algumas crônicas para evitar o fim.
Aí vai.



Era na Rua Alegre, em Aldeia Campista. Hoje, não existe mais a Rua Alegre e quase não existe mais a aldeia Campista. Do ano, não estou bem certo. Ou 1921 ou 1922. Não, não. Vinte e dois foi o ano do centenário. Agora me lembro: - 21. No ano seguinte, minha família foi morar na Tijuca, Rua Antônio dos Santos. Defronte morava o juiz Eurico Cruz. Mas volto à Aldeia Campista. No fim da Rua alegre, exatamente na esquina com a Maxwell, estava a escola pública.
Lá fiz todo o curso primário. Ou por outra: - não todo. Fui até o terceiro ano do primário, só. Quando minha mãe me matriculou, eu estava absolutamente certo de que jamais aprenderia a ler e jamais aprenderia a escrever. E foi lá, na escolinha pobre que tinha, se tanto, oitenta alunos, foi lá que sofri o primeiro e definitivo trauma da minha infância. Tinha eu seis anos e, como já escrevi, era pequenino e cabeçudo como um anão de Velásquez.
Esse trauma, profundo e irreversível, foi um sanduíche. Exatamente, um sanduíche. Minha mãe, que foi uma das mulheres mais lindas do seu tempo, tinha que ir para a cozinha e para o tanque. Uma tarde passou por casa uma amiga de minha mãe, amiga dos bons tempos de Recife. Entrou, e quando viu a nossa miséria, começou a chorar. Chorava a visita por um lado e minha mãe por outro. Até então eu não via a miséria como tal. E me considerava rico diante dos filhos da lavadeira.
(Chamava-se Dolores a amiga de minha mãe. Aí está:- Dolores.) Bem. Éramos tão pobres que eu nem sempre levava merenda para a escola. Mas no primeiro dia, e como era o primeiro dia, levei uma banana. Ninguém pode imaginar a ternura, a um só tempo agradecida e triste, com que eu a segurava. O fato de tê-la fez me sentir um pequeno príncipe. O importante na escola não foi a escola, nem a aula, nem a professora. Foi o recreio, foi a merenda, foi a banana.
Tudo aconteceu na hora do recreio. Lá fui eu, com todos os outros, para o pátio. Tenho seis anos e vou comer uma banana. Aos seis anos ninguém come uma banana com fulminante voracidade. No meu tempo, as crianças primeiro a lambiam. Chupavam-se bananas como hoje, o chicabon. Eu estou descascando radiante a banana. E, súbito,paro. Na minha frente, está um garoto, de cabelo à nazareno. Traz a merenda num papel, papel amarrado com barbante, prateado ou dourado. Desfez o nó sem pressa. Desembrulha. E lá estava simplesmente, o sanduíche de ovo, o único sanduíche de ovo de todo o recreio.
(Já contei este episódio umas dez vezes. Mas entendam: - reescrevê-lo dá-me uma desesperada euforia.) O garoto está na minha frente e não tira os olhos de mim (por minha vez, também não tiro os olhos dele). Ali começou a vergonha, ali começou a humilhação da banana. Uma professora apareceu e, por um momento, até ela invejou aquele afrontoso pão com ovo. Outros meninos, outras meninas, olhavam também. Uma menina tinha uma latinha de biscoito. Mas a latinha perdeu, longe, para o sanduíche. A professora passou outra vez. Uma tristeza turvou seu olhar. Tristeza, e mesmo ressentimento, por não estar comendo o pão com ovo. Digo isso e nem sei se estou tecendo uma cruel fantasia retrospectiva. E, não contente, o menino deixava escorrer a gema como uma baba amarela. Era, como já escrevi, o trauma. Digo trauma e não ponho um T maiúsculo por um certo pudor estilístico.
Ora, depois disso aconteceu o diabo. Dias, meses, anos já fluíram para a eternidade. Houve a guerra, Hiroshima. Mas a lesão de alma lá continua, preservada, intacta, indiferente ao tempo e à bomba atômica. Escrevo isso e paro de bater à máquina.
Imaginem que comecei esta crônica para falar de um “seu” Sepúlveda, nosso vizinho de Aldeia Campista. O nome é fascinante:- Sepúlveda. Não saberia descrever a sua cara. Para mim, Sepúlveda é um nome solto, perdido. Minto. È mais que um nome. Lembro-me de sua barriga, a maior do bairro,m talvez da cidade. E o nome – Sepúlveda – era o meu espanto, quase o meu horror. Ele não fez, não disse, não pensou nada que o notabilizasse. Sua única singularidade, além do nome, era a barriga.
Não sei se morreu,mas creio que sim. E quem não morreu de 1922 para cá? Ontem vi uma fotografia do Flamengo x Fluminense de 1919. Aparece a multidão. E penso que aquelas cinco mil, dez mil pessoas, estão mortas. Mas como ia dizendo: - depois que saímos de Aldeia Campista, nunca mais o vi. O nosso Sepúlveda, com tal nome e tal barriga, desapareceu até o último vestígio. De vez em quando, eu me pergunto se alguém se chamou Sepúlveda e se alguém usou a sua barriga. Mas vejam vocês: - eu tive, ontem, exatamente ontem, uma surpresa encantada. Entro no boteco para tomar o meu cafezinho. E lá estava um bêbado admirável.
Fosse eu um idiota da objetividade, e teria começado esta crônica pelo Sepúlveda. E enveredei por toda uma caprichosa narração nostálgica. Vi o bêbado e confesso: - para mim, não há pau-d’água intranscendente. Também se conhece um povo, ou classe, ou época, pelos seus bêbados. Mas o pau-d’água citado era da classe média e explicava por que não se casara até então. “Eu não concordo com o Sexo”, declarava. Segundo ele, o Sexo é o responsável por todas as calamidades pessoais e coletivas. E súbito me viu. Caminhou para mim e apresentou-se: - “Fulano de tal Sepúlveda.” Tomo um choque. De repente, toda a minha infância se instalou ali, no boteco. Sepúlveda. Por que exatamente esse nome e não outro qualquer? Há milhões de nomes e teria de ser Sepúlveda. Com a boca encharcada, disse-me:- “Sexo é pra operário.” E repisou a frase não sei quantas vezes. Por fim, confessou que ouvira isso de um rapaz de muito talento, com pinta de galã, o Luís Eduardo Borghert.
Uma hora depois, entro na redação e a apanho a correspondência. Ao abrir o primeiro envelope, tomo um susto. Era um leitor irritadíssimo. Lera algumas “confissões” e vira em mim um brutal reacionário. Não queria, porém, ser injusto. Por isso, pedia ou exigia que eu me definisse sobre a “Educação Sexual”. Sou contra ou a favor? Bem. Vou ser o mais taxativo possível: - “Sou contra.” E, para evitar qualquer dúvida, ou sofisma, direi com a maior ênfase: - “Absolutamente contra.” Não sei se me entendem. A “Educação Sexual” devia ser dada por um veterinário a bezerros, cabritas, bodes, preás, vira-latas e gatos vadios. No ser humano, sexo é amor. Portanto os meninos, as meninas deviam ser preparados, educados para o amor. Se meu leitor progressista ainda não está satisfeito, direi algo mais. O homem é triste porque, um dia separou o Sexo do Amor. Nada mais vil do que o desejo sem amor. A partir do momento da separação, começou um processo de aviltamento que ainda não chegou ao fim. E assim o homem tornou-se um impotente do sentimento e, portanto, o anti-homem, a antipessoa.


Escrito por Maria Fernanda às 13h24
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Questa es la insegnante di culto religioso! - Ivete Sangalo é coisa do demônio



Regina e Borges conversavam sobre amenidades num boteco de esquina. Era aniversário de Sandra, uma amiga em comum. O boteco, e por ser de esquina, algo como uma curva de rio, é aquele ambiente onde se encontram figuras de uma diversidade gritante. O Sr. Roberto, um velho viciado em fliperama, os pedreiros da região, os alunos da PUC, o profissional da sinuca botequeira que usa boina de lado.


Tocava Michael Jackson, Billie Jean. Vladimir, um sósia do Lula de cabelos longos à la cantor de heavy metal, dançava pateticamente para a diversão dos fregueses.


E toca o telefone. O dono do bar abaixa o som de forma súbita e diz:


_Vladimir, é a sua esposa.


O boteco é algo tão familiar da cultura brasileira que até as esposas ligam com o fim da fiscalização marital.


Foi quando adentrou no bar uma mulher bonitona, com um cachecol de plumas no pescoço. Homens, mulheres e crianças repararam. Era amiga de Sandra, mais que amiga, pareceu.


Alguns se indignaram, afinal a namorada de Sandra acabara de ir embora. Uma indignação pela canalhice da aniversariante, ou uma indignação pela própria incapacidade de ser simplesmente um pulha, apenas um canalhocrata em busca da realização de um sonho dourado, através de uma pequena vileza em prol das próprias vontades.


Foi então que Sandra se aproxima de Regina e de Borges, e diz:


_Gente, esta é a Glória: a professora de ensino religioso! - com um ponto de exclamação.


Isto, dito desta forma, causou um frenesi e abestalhação profunda. Faltou apenas o canto gregoriano ao fundo, e uma luz de vitral vinda do alto. Ela até poderia ter dito em italiano, para um efeito Fellini, de impacto profundo e irreversível: Questa es la insegnante di culto religioso! E o nome da criatura era outro dado curiosíssimo, adequadíssimo à situação. E com um cachecol de plumas!!!


Regina riu internamente e quando olhou para Borges, viu um sujeito boquiaberto, quase babava. A própria expressão de Regina deveria estar inexplicável, translúcida. Ela não soube, pois não pôde olhar para a própria cara.


Cumprimentaram a professora.


Foi esta se afastar para um canto do bar que Borges exclamou:


_A Sandra é foda!!! - num misto de inveja e admiração. A admiração diante da canalhice nunca alcançada somada à fascinante aura espiritual da conquista.


Sandra é conhecida por uma seguinte frase de Neves, outro amigo:


_Eu não disputo mulher com a Sandra!!!!!! - e mil pontos de exclamação.


Uma mulher conhecida por converter até as mais convictas no campo das preferências afetivo-sexuais.


Eis que a namorada de Sandra descobriu tudo, e deu a ela um magnífico pé na bunda.


Mas Sandra tinha então um achado, uma professora de ensino religioso! Um fetiche intransponível para a maioria, até então.


Foi quando aconteceu uma coisa incongruente. Diante da TV, do domingão do Faustão (argghh), provavelmente, a professora teve uma síncope. Sandra não tirava os olhos de Ivete Sangalo. Começou a discussão acalorada sobre a beleza, ou a não beleza, de Ivetão.


É como um marido que se indigna com a admiração da esposa pelo Antônio Fagundes, o Humberto Martins e o Tony Ramos, considerados miraculosamente galãs brasileiros. Um Brad Pitt, vá lá, um Clive Owen, vá lá. Enfim...


O fato é que Sandra, apesar de todo o halo de encanto proibido, terminou com Glória, e por causa de ninguém mais, ninguém menos, que Ivete Sangalo, uma demoníaca celebridade televisiva, que nos importuna, dia após dia com suas canções vindas diretamente do inferno.



Escrito por Maria Fernanda às 17h25
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Uma pérola da sabedoria rodrigueana


"Diz-se muito: - "Ninguém é insubstituível." Eis aí uma bobagem repetida em todas as épocas e em todos os idiomas. Melhor seria dizer, inversamente, que todos são insubstituíveis."





Escrito por Maria Fernanda às 18h59
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Complexo de Vira-Lata - Parte II

Quando se deu conta de que conseguira fugir, Hélio Campos foi tomado pelo pânico.
Tinha esperado os guardas adormecerem por causa do turno puxado que tiveram, quase o dobro. E quando fora da casa, alimentou os cães rottweiller com as refeições que escondera durante os três dias anteriores. Correu a noite inteira, com todas as suas forças.
Sete meses antes, ele recebera uma proposta inacreditável de trabalho, na região norte, que aceitou sem hesitar. Achou bizarro porém que tivesse de ir vendado até o local de trabalho, há 8 horas da cidade mais próxima. Naquele momento sentiu que havia algo de podre, mas já era tarde.
E de fato, trabalhou durante sete meses sob a mira de metralhadoras, descansando 6 horas por dia. Não podia sair, estava confinado.
H. Campos saiu descalço, pé ante pé, deu o agrado aos cachorros, e correu na mata fechada durante as próximas 40 horas após a fuga, com fome. Rezou o tempo todo para não ser encontrado pelos jagunços ou devorado por animais. Só não foi picado por cobras devido à velocidade em que corria, movido pelo terror. Não tinha a menor idéia de sua localização, estava completamente desorientado.
Ao amanhecer, seguiu o barulho de uma rodovia, que parecia estar do outro lado de um rio largo, fundo e de correnteza forte, talvez habitado por piranhas. Pensou em atravessar a nado, tamanho seu desespero. Foi então que dormiu, coberto de folhas, cansado e com medo de ser surpreendido em alguma clareira. Teve um sonho, no qual atravessava uma ponte, em uma certa direção.
Ao acordar, no fim da tarde, seguiu a direção sonhada e encontrou aquela ponte, como por milagre. Foi Deus.
Pegou uma carona na estrada até a cidade mais próxima, e foi à polícia para denunciar o campo de trabalho escravo onde esteve. Quando porém citou o nome do contratante, o policial o alertou de que ele deveria deixar aquele estado, aquela região do país, imediatamente e para o seu próprio bem. E reiterou com veemência de que se encaminhasse a denúncia, Hélio seria um homem fodido, no sentido amplamente prejudicial da palavra.
H. Campos é um Homem Comum, de bem. Agora ele dorme mal, tem crises nervosas e vive com medo. Ele sabe que é procurado, e que talvez a tranquilidade jamais retorne à sua vida.
Hélio Campos não deveria pensar assim, mas sente-se um vira-lata no sentido estritamente negativo da expressão. Justamente o oposto de seu contratante, um cão com pedigree e cargo no governo.

Escrito por Maria Fernanda às 04h09
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Faço Questão!


Fazer questão: Ato de obrigar ou persuadir alguém com uso singelo de fascismo.

Duvido visitar este blog:

http://www.republicadefiume.blogspot.com/





Escrito por Maria Fernanda às 12h28
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